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PENSAMENTOS GEOGRÁFICOS do PIBIDIANO DE GEOGRAFIA JÚNIOR CESAR 

 

"Pra você que faz cara feia quando eu digo que faço GEOGRAFIA ou solta um "Hum, que legal" extremamente irônico...

Só tenho a dizer que a amplicidade dessa ciência me torna a cada dia uma pessoa melhor e aumenta ainda mais o meu amor pelas diversas Geografias que rodeiam a todos. ...   Minha graduação me permite ousar a te falar um pouco sobre o universo ou da formação da Terra. Posso te explanar sobre a dicotomia do urbano X rural ou te fazer me odiar falando de política.   Posso ainda demonstrar como a dispersão dos biomas estão intimamente ligados à composição do solo, ao clima e dentre outros fatores.   Posso te ensinar a diferença de clima e tempo e te fazer perceber o quanto é engraçado quando você diz "Como está o clima hoje?" e te aborrecer falando de economia ou dos males do capitalismo.   Posso mostrar rochas, minerais e o dinamismo das formas e estruturas do relevo.   Posso ainda, descobrir contigo outras cidades, estados, países e continentes, e outros planetas também!   Conto histórias também, do PR, do Brasil e do mundo e quebro a cabeça com problemas matemáticos da nossa amiga Cartografia.   Questiono os problemas da educação geográfica e modifico meu modo de ensinar, para despertar a busca sagaz em aprender Geografia.   São tantas ciências que a Geografia engloba, que posso ter me esquecido de algo que está ao meu domínio. Mas é isso, não existe uma ciência melhor do que a outra, mas se existisse, a Geografia seria uma forte candidata!   A Geografia mexeu comigo e me fez amá-la incondicionalmente.   Enfim, a Geografia é uma mãe que te acolhe e te faz refletir, questionar e propor soluções para o mundo. Ela está em toda parte, até mesmo dentro de você."

 

 

 

 

 

 

 

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GEOPOLÍTICA
GEOPOLÍTICA

 

Desenhando, para até o pessoal do complexo de vira-latas poder entender

27 de abril de 2015 | 12:52  Autor: Fernando Brito
planeta1

 

A ilustração que retirei do Facebook da comunidade Planeta Fascinante é daquelas que quase dispensam legenda.

Ainda assim, é só olhar quem são os países que somam território, população e riqueza econômica.

Os cinco que ocupam a área de intersecção dos três conjuntos.

Deveria ser o que bastasse para entender que o Brasil é um país com destino próprio, não o de ser um satélite.

Como para ver onde estão nossas sinergias.

Repare, não disse ideologias.

Disse oportunidades.

Embora assim tão obvio, a elite brasileira não consegue enxergar.

Tem na cabeça que o Brasil deveria ser uma sub-Miami.

A burrice é uma coisa muito difícil de combater, porque prescinde de argumentos e sustenta verdades que ouviu de alguém e as repete.

Quem sabe assim, desenhando?

 

Todos os mapas que você conhece são ruins

O sul pode estar acima, a Austrália no meio, a Europa abaixo à esquerda e a África à direita

De vez em quando, alguém nos recorda que todos os mapas são ruins. Como este tuíte.

 

 

Estes mapas com o sul para cima não são usados tão habitualmente na Austrália, mas são comuns como forma de demonstrar que a orientação com o norte para cima é arbitrária: poderia ser de qualquer outro jeito. Na verdade, ele expõe três dos problemas que os cartógrafos enfrentaram ao longo da história.

1. Para onde oriento o mapa?

Nos parece tão óbvio que os mapas estejam voltados para o norte que nos esquecemos de que essa é uma convenção, e que norte e para cima não são sinônimos. “Não há nenhuma razão puramente geográfica pela qual uma direção seja melhor do que a outra, ou pela qual os mapas ocidentais modernos tenham naturalizado a suposição de que o norte deveria estar para cima”, escreve Jeremy Brotton em seu livro A History of the World in 12 Maps (“uma história do mundo em 12 mapas”).

De fato, nos mapas medievais judaico-cristãos e até o final do século XV, a Terra era representada orientada para o leste, com a Ásia para cima, a Europa abaixo à esquerda e a África abaixo à direita, como no mapa-múndi de Saint Sever. Afinal de contas, “orientar” vem de “oriente”.

Mapa-múndi do Beato de Saint Sever. / Wikipedia

O leste era preferido em muitas culturas por ser a direção de onde vinha o sol, sendo o sul a segunda direção em termos de preferência. O oeste estava associado à decadência e morte, e o norte “à escuridão e à maldade”. Mas não em todo lugar: os mapas babilônios e chineses, por exemplo, orientavam-se para o norte, assim como as cartas propostas pelo astrônomo Ptolomeu no século II da era cristã. Parece sensato, de fato, que os mapas para navegação levem em conta o eixo norte-sul, dado o uso de bússolas, mas Brotton nos recorda que seria igualmente fácil optar pelo sul acima.

Aliás, “todos os estudiosos da Idade Média sabiam que a Terra era uma esfera”, explica Umberto Eco em seu História das Terras e Lugares Lendários, citando Dante, Orígenes, Ambrósio, Alberto Magno, Tomás de Aquino e Isidoro de Sevilha, que inclusive calculou o comprimento da linha do equador. As dúvidas sobre a rota proposta por Colombo, diga-se de passagem, não decorriam do temor de cair num abismo, e sim do fato de que Colombo teria subestimado o tamanho da Terra, traçando assim uma rota que não era tão curta quanto ele imaginava (e não era mesmo).

Se alguém ainda tem dúvidas sobre como é arbitrário orientar um mapa para qualquer direção, basta ver esta foto. É a Terra fotografada da nave Apollo 17, com o Polo Sul acima. Sim, normalmente giram a imagem para que ninguém fique nervoso.

A ilha no centro é Madagascar. / NASA

2. Que coloco no centro?

Como se pode ver no mapa do tuíte, a Austrália está situada no meio. A maioria dos mapas “coloca no centro a cultura que os produziu”, como explica Brotton. O que tem um sentido não só político, mas também prático: como quando abrimos o Google Maps e a primeira coisa que queremos saber é onde estamos, para saber qual caminho precisamos seguir.

“Alguma vez você já quis tanto ser o centro das atenções que partiu a Ásia em dois?”, pergunta esse ‘meme’ sobre os mapas norte-americanos que colocam as Américas no centro

O centro tem um valor simbólico, como no caso do mapa-múndi da catedral de Hereford, desenhado por volta do ano 1300 na Inglaterra, mas que coloca Jerusalém em seu centro. Ou como o mapa que aparece no logotipo das Nações Unidas, com centro no Polo Norte, para que ninguém se zangue – uma ideia semelhante à projeção criada pelo norte-americano Richard Edes Harrison durante a Segunda Guerra Mundial, com outros objetivos em mente: mostrar tanto a importância do avião no conflito como o lugar que os Estados Unidos e a União Soviética ocupariam depois da guerra.

 

3. Como desenho uma esfera em um plano?

Esse é um dos problemas mais complexos para os cartógrafos, explica Brotton, já que é impossível projetar uma esfera em uma superfície bidimensional sem que haja algum tipo de distorção na forma ou nos ângulos. Usemos como exemplo um mapa que segue a projeção de Mercator, um planisfério de 1569 no qual muitos dos mapas atuais se baseiam.

Mapa-múndi com a projeção Mercator. / Strebe / Wikipedia

Conforme recorda este vídeo do Buzzfeed, esse mapa contém proporções que não são corretas.

Mercator “tratou o globo como um cilindro e manteve os ângulos cuidadosamente em sua superfície”, explica Brotton. Os meridianos não convergem como deveriam, e por isso a Antártida parece ser tão grande, e a Groenlândia aparece com uma área semelhante à da América do Sul inteira, apesar de ter apenas uma oitava parte da sua superfície. Além disso, a Europa parece ter o dobro do tamanho da América do Sul, sendo que na verdade é metade. Há várias outras distorções assim.

Mas, ainda que pareça estranho, o mapa de Mercator está longe de ser ruim. As distorções permitem manter os rumos marítimos em linhas retas, o que era um de seus objetivos. Ainda hoje, Google Maps, Bing e OpenStreetMap, por exemplo, usam uma variante do Mercator para seus mapas em grande escala, já que seus “retângulos simétricos se adequam perfeitamente aos mosaicos de pixels que compõe um mapa digital”, explica Simon Garfield em seu livro On the Map: Why the World Looks the Way It Does (“sobre o mapa: por que o mundo tem a aparência que tem”).

Ou seja, todas as projeções têm suas vantagens, mas também seus inconvenientes (e distorções, que podem ser medidas com os chamados indicadores de Tissot). Até mesmo a projeção de Arno Peters, criada em 1973. No seu mapa, os continentes do norte aparecem radicalmente reduzidos em tamanho, enquanto a África e a América do Sul se apresentam como “lágrimas enormes escorrendo para a Antártida”, como descreve Brotton. Esse planisfério buscava corrigir as falhas de proporções do Mercator e demonstrar que a nossa forma de ver o mundo tem consequências políticas. O mapa de Peters foi o mais vendido durante as duas décadas seguintes, sendo adotado por entidades como as Nações Unidas e a ONG Oxfam. Chegou inclusive à série de TV West Wing, na qual um cartógrafo pronuncia a frase: “Nada está onde você acha que está”.

Projeção de Gall-Peters. / Strebe / Wikipedia

Mas essa projeção também tem distorções e erros de cálculo: a Nigéria e o Chade, por exemplo, aparecem com o dobro do tamanho real. Ainda por cima, Peters não mencionou que se baseara no trabalho de James Gall. Apesar de todos esses defeitos, Brotton recorda que seu grande mérito é ter “obrigado os cartógrafos a admitirem que seus mapas nunca haviam sido e nunca poderiam ser ideologicamente neutros ou representações cientificamente objetivas”. O modelo também contribuiu para que fossem criadas (ou recuperadas) projeções adequadas para fins específicos, levando-se em conta que cada uma tem suas aplicações.

A projeção do mapa australiano citado no tuíte do começo, por exemplo, é a Hobo-Dyer, de 2002, similar à Gall-Peters. Este outro mapa é da projeção Robinson, de 1963, incorporando elementos dos mapas de Mercator e Gall-Peters, além de tentar simular certa curvatura, embora isso gere uma distorção nas altas latitudes.

 

Projeção de Robinson. / Strebe / Wikipedia

A de Goode, de 1923, mantém a proporção de tamanhos, mas as direções e distâncias não são fidedignas.

 

Projeção de Goode. / Strebe / Wikipedia

A Dymaxion, de R. Buckminster Fuller, é um icosaedro desenhado de forma a manter os formatos e dimensões, tentando representar os continentes de forma contínua.

 

Projeção Dymaxion. / Eric Gaba / Wikipedia

 

A Winkel Tripel, de 1921, é uma das projeções que menos distorcem. Desde 1998, a National Geographic a utiliza como padrão, substituindo a Robinson.

À medida que nos familiarizamos com a imagem do mundo, os mapas passaram a ser usados para refletir temas sociais, políticos e econômicos. Na verdade, os planisférios frequentemente são distorcidos de modo a refletir esses aspectos. Um dos principais exemplos desta tendência é o Atlas of the Real World: Mapping the Way We Live (“Atlas do mundo real: mapeando a forma como vivemos”, de 1998), em que Daniel Dorling, Mark Newman e Anna Barford desenharam 366 mapas adaptando-os segundo dados demográficos, de migração, de mortalidade infantil e de mortalidade em conflitos bélicos, entre outros temas. Na mesma linha, este mapa de TeaDranks, usuário do foro Reddit, mostra os tamanhos dos países segundo sua população em 2015. Austrália e Canadá quase desaparecem, e a Índia fica maior que a África.

 

Tamanho dos países segundo sua população em 2015 / TeaDranks / Reddit

Este outro, de Jan Van der Weijst, ajusta os tamanhos segundo a taxa de encarceramento a cada 100.000 habitantes de cada país.

 

Mapa-múndi com os tamanhos dos países ajustados segundo sua população carcerária. / Jan Van der Weijst

Os mapas também podem nos servir para ver o tamanho da África em perspectiva. E isso que este exemplo segue a projeção de Mercator –o Reino Unido na realidade tem metade do tamanho de Madagascar, e não um tamanho semelhante, por exemplo.

 

O mapa anterior ganha especial relevância se além do mais o comparamos com a riqueza de cada país.

 

  

 

 

Os verdadeiros donos do mundo

A economia mundial vive a maior crise em 80 anos. Ela destruiu milhões de empregos e impede o crescimento da maioria dos países. Ao mesmo tempo, o número de bilionários dobrou, e as fortunas deles também. Entenda por que a desigualdade social explodiu - e os efeitos disso sobre a sua vida.

 

As 67 pessoas mais ricas do mundo têm US$ 1,72 trilhão. Tanto dinheiro quanto os... 3,5 bilhões mais pobres. Metade de toda a humanidade.

Este ano, um grupo de 130 pessoas se reuniu em Copenhague, capital da Dinamarca. Discutiram assuntos como economia global, mudanças climáticas, guerras. Fizeram previsões, debateram, traçaram estratégias. Parecia uma assembleia da ONU. Mas era um encontro do Grupo de Bilderberg: organização criada em 1954 para reunir as pessoas mais poderosas do planeta. Seu encontro anual, que não é aberto a ninguém da imprensa, reúne multibilionários e chefes de Estado e de Exércitos (este ano, os destaques foram o líder supremo da OTAN, aliança militar presente em 28 países, e o diretor-geral da NSA, a superagência de espionagem americana). "Estamos falando de uma rede global, mais poderosa do que qualquer país, e determinada a controlar a humanidade", diz o russo Daniel Estulin, autor de um livro sobre o grupo. Ele pode estar exagerando um pouco. Mas é fato que os ultrarricos nunca tiveram tanta força. A economia mundial patina e não consegue se recuperar da megacrise de 2008, a maior dos últimos 80 anos. Ela começou com quebras de grandes bancos nos EUA, que deixaram um rombo estimado em US$ 2,7 trilhões, e se espalhou pelo planeta, gerando grandes ondas de desemprego e recessão - da qual as principais economias do mundo ainda não se recuperaram. Mas mesmo assim, em plena tempestade, o número de bilionários dobrou. Agora um pequeno grupo, com as 67 pessoas mais ricas do mundo, tem tanto dinheiro quanto os 3,5 bilhões de humanos mais pobres. É como se, financeiramente, metade do planeta coubesse dentro de um ônibus. A desigualdade de renda explodiu, e está se aproximando dos níveis que antecederam a Primeira Guerra Mundial. E isso tende a ser um problema para quase todo mundo.

 

 

Mas antes: como chegamos a esse ponto? Afinal, se o mundo está em crise, todos perdem, certo? Mais ou menos. Na verdade, as crises têm o poder de concentrar renda, deixar os ricos mais ricos. E é fácil entender o porquê. Quando as coisas apertam, pessoas e empresas são obrigadas a se desfazer do seu patrimônio. Vendem imóveis pela metade do preço, liquidam ações por menos do que valem e, claro, saem perdendo. Quem ganha são uns poucos - que têm dinheiro para comprar tudo isso. "Para cada novo milionário, há muito mais gente que perde dinheiro. Em geral, quem mais sofre são os pobres e a classe média", diz Rodolfo Olivo, professor de finanças da USP. Os mais ricos compraram ações e empresas pagando pouco, logo no estouro da crise, e ganharam com isso. De 2009 para cá o índice Dow Jones, que mede as principais ações das bolsas americanas, subiu 149%. Ao mesmo tempo em que aumentava a concentração de renda, a crise emperrou as economias e instigou movimentos como o Occupy Wall Street - que começou como um protesto de 100 mil pessoas no centro financeiro de Nova York e chegou a 1.500 cidades pelo mundo. Tudo isso teve uma consequência inédita: fez um livro de economia virar best -seller. O Capital no Século XXI, escrito pelo economista francês Thomas Piketty, é um catatau de quase 700 páginas, que analisa as economias de 20 países ao longo de mais de um século. É denso, complexo, difícil de ler. Mas se tornou número 1 na Europa e nos EUA, com centenas de milhares de cópias vendidas. No Brasil, foi lançado em novembro e imediatamente alcançou o segundo lugar (só perdendo para a biografia do líder religioso Edir Macedo). Piketty tem chamado a atenção - e causado furor - porque demonstrou, com estatísticas, que a desigualdade social está aumentando. E apresentou uma explicação para esse fenômeno. O contraste entre ricos e pobres não surge do nada. Ele vem de uma força elementar: a diferença entre o capital e o trabalho. O capital (dinheiro, imóveis, fábricas, ações, bens) pode ser investido e gerar mais capital. Já o trabalho não tem esse poder multiplicador. E aí, diz Piketty, r > g. Essa fórmula, que foi inventada por ele, é bem simples. O "r" é o ganho médio que o capital consegue obter em um ano, por meio de investimentos. Já o "g" representa a taxa de crescimento da economia. Ou seja: se r é maior que g, quem tem capital para investir sempre ganha mais do que a economia como um todo. E fica com uma fatia cada vez maior do bolo. Já quem trabalha e recebe salário, ou seja a maioria das pessoas, fica com menos. E como dizia o refrão daquela música, "o de cima sobe e o de baixo desce". Nem sempre foi assim. Entre as décadas de 1950 e 1970, o processo foi inverso. O crescimento da economia era maior que o ganho dos investimentos (ou seja, g > r). O mercado financeiro lucrava menos do que a `economia real¿, embalada pela reconstrução da Europa e a explosão de prosperidade nos EUA. A desigualdade diminuiu. Mas a onda virou, e a distância entre ricos e pobres voltou a crescer. No final dos anos 70, os presidentes das 350 maiores companhias do mundo ganhavam, em média, 30 a 40 vezes mais que os funcionários de base. Hoje, a diferença de salário entre o presidente e o peão passa de 300 vezes. Nos Estados Unidos, o salário médio dos trabalhadores encolheu de US$ 4 mil para US$ 2.750 (em valores reais, descontando a inflação do período) entre 1978 e 2010. Já a remuneração do 1% mais rico disparou: foi de US$ 25 mil para US$ 83 mil. No Brasil, a concentração de renda caiu nos últimos 20 anos. Mas ainda é brutal. Somos o 13º país mais desigual do mundo (veja quadro na página 40), só perdendo para nações muito pobres, como Botsuana, Namíbia e Haiti. "Quanto maior é a desigualdade, mais altas são as taxas de homicídio, de uso de drogas, mortalidade infantil, doenças psiquiátricas e até de obesidade", diz Richard Wilkinson, diretor da ONG britânica The Equality Trust. Reduzir a diferença entre ricos e pobres não é apenas uma questão humanitária ou ideológica. É importante para a saúde da própria economia. E quem diz isso não são pregadores esquerdistas: é o Fundo Monetário Internacional, que publicou um estudo mostrando como a desigualdade extrema tende a gerar crises, e o World Economic Forum - que reúne 700 líderes econômicos globais e este ano elegeu a desigualdade como o grande problema do mundo atual. Até o papa Francisco andou palpitando a respeito: para ele, a desigualdade "provocará uma explosão da violência" no mundo se não for contida.

 

 

O DINHEIRO NO PODER

Os donos do mundo aproveitaram a crise e exploraram a diferença entre capital e trabalho para aumentar suas fortunas. Mas também podem recorrer a outros meios, como a política. A história está recheada de casos de multibilionários que usaram suas fortunas para moldar o destino da humanidade - e ficaram ainda mais ricos fazendo isso. No século 19, o banqueiro Nathan Rothschild foi o grande instigador da derrota de Napoleão na batalha de Waterloo. Ele comprou a maior parte dos títulos emitidos pelo Exército inglês para financiar a guerra. Cheio de dinheiro, e portanto de armas, o Exército foi ao front e venceu. Rothschild foi a primeira pessoa na Inglaterra a ficar sabendo. Sem avisar ninguém, saiu vendendo seus títulos. Os outros investidores acharam que a Inglaterra tinha perdido a guerra, e também venderam os titulos que possuíam. Isso derrubou os preços deles. Rothschild aproveitou para recomprar tudo, pagando baratíssimo. No dia seguinte, quando o resto do país foi informado da vitória, o valor dos papéis disparou. E Rothschild multiplicou sua fortuna em 20 vezes. Ela chegou a US$ 350 bilhões, em valores atuais. Dá mais de quatro Bill Gates. Hoje, a influência dos überricos na política é mais sutil, mas igualmente forte. Um bom exemplo é o Tea Party, que surgiu nos Estados Unidos em 2009 - à primeira vista, como movimento popular. De repente, milhares de americanos estavam nas ruas para protestar contra coisas que os incomodavam. Só que ninguém estava reclamando da falta de saúde ou educação, ou de 20 centavos a mais na passagem do ônibus. As reivindicações eram mais ao gosto de empresários e banqueiros: redução de impostos, liberação nas emissões de CO2 (que, segundo o Tea Party, não é o responsável pelo aquecimento global) e fim do sistema de saúde gratuito que Barack Obama tentava implantar nos EUA. Com inclinações tão ostensivas, era difícil que a máscara não caísse. A imprensa americana logo descobriu que, na verdade, o Tea Party tinha sido criado e era financiado pelos irmãos David e Charles Koch - que estão entre as dez pessoas mais ricas do mundo. Só neste ano, eles já compraram 43.900 espaços publicitários em TVs e rádios dos Estados Unidos para difundir mensagens políticas e apoiar determinados candidatos. Quando foram flagrados como criadores do movimento, os irmãos Koch não se abalaram. Admitiram tudo, e disseram que seu objetivo é melhorar a "qualidade de vida" da sociedade. No Brasil, são notórios os casos de empresas ou de milionários que dão dinheiro para financiar partidos políticos: são as controversas doações de campanha. Nas últimas eleições, elas ultrapassaram a marca de R$ 1 bilhão, segundo o TSE. As dez empresas que mais doaram (JBS, Bradesco, Itaú, OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht, UTC Engenharia, Queiroz Galvão, Vale e Ambev) financiaram 70% de todos os deputados federais eleitos - 360 de 513, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo. As doações são permitidas por lei. Mas podem causar distorções. Imagine que você foi eleito deputado. Certo dia, sua secretária avisa que há duas pessoas esperando você. Uma é um cidadão qualquer. A outra é um empresário que doou alguns milhões para a sua campanha (e de cuja ajuda você vai precisar na próxima eleição). "Quem você se sentiria mais pressionado a receber?", pergunta Claudio Abramo, diretor da ONG Transparência Brasil. "Os grandes doadores exercem uma pressão muito maior sobre os políticos." Uma possível saída seria limitar ou proibir as doações privadas e financiar as campanhas com dinheiro público, como já acontece em países como Suécia e França. Isso ajudaria a conter a influência dos empresários. Mas a medida também tem seu lado polêmico, pois consumiria recursos públicos. O valor do financiamento poderia ser fixado por lei, obrigando as campanhas a gastar menos do que hoje. Isso enfrentaria grande resistência da classe política, e o financiamento público não é uma panaceia - pois candidatos mal-intencionados sempre poderiam receber dinheiro por fora, por meio de caixa 2. De toda forma, quem tem força econômica nem sempre precisa manipular os políticos. Às vezes, pode obrigá-los a fazer as coisas. Como o megainvestidor George Soros, 24º. homem mais rico do mundo. Ele fez fortuna comprando e vendendo ações e títulos do mercado financeiro - doa a quem doer. Sua maior demonstração de poder foi a quebra do Banco da Inglaterra. O banco, que foi fundado no século 17, é o equivalente inglês ao nosso Banco Central. Controla a economia e a moeda. Em 1992, a Inglaterra tinha feito um pacto com outros países da Europa. Ela se comprometeu a manter sua moeda, a libra esterlina, numa cotação igual ou superior a 2,77 marcos alemães (o euro ainda não existia). Se o valor caísse abaixo disso, o Banco da Inglaterra era obrigado a intervir. O objetivo era reduzir as oscilações econômicas na Europa. Mas Soros viu nisso uma grande oportunidade para lucrar. Sem chamar a atenção, ele foi pegando empréstimos e comprando libras esterlinas. Acumulou o equivalente a US$ 10 bilhões. Aí, no dia 16 de setembro de 1992, vendeu todas. Jogou tudo de uma vez no mercado. Como havia excesso de libras, a cotação delas despencou. Em pânico, o Banco da Inglaterra tentou aumentar os juros e comprar libras para defender a moeda. Mas Soros era mais forte. O governo inglês foi obrigado a abaixar a cabeça e aceitar a desvalorização da libra. No dia seguinte Soros recomprou, pagando menos, tudo o que tinha vendido - e ganhou US$ 1 bilhão com isso. O episódio ficou conhecido como "Quarta-feira Negra". "Os grandes acertos de Soros foram saber quem iria perder", escreve o historiador Niall Ferguson em A Ascensão do Dinheiro - A História Financeira do Mundo (Editora Planeta). Naquela ocasião, o perdedor foi a Inglaterra. Mas não foi o único caso do tipo. Esse jogo, em que grandes investidores forçam os países a desvalorizar suas moedas, começou na Tailândia, se espalhou por vários países da Ásia, chegou à Rússia e veio parar no Brasil. Em 1999, depois de sofrer um ataque similar, o Banco Central foi obrigado a abandonar o sistema de bandas cambiais, que estipulava uma variação máxima para a cotação do real. E aí está outro problema da superconcentração de renda: ela permite que megainvestidores, como Soros, tenham força para mexer com a moeda de um país inteiro. Hoje, estima-se que haja mais de US$ 600 trilhões aplicados no mercado financeiro, dez vezes mais do que na chamada "economia real". O dinheiro que fica dentro do mercado, e não é investido em empresas e projetos, só serve para fabricar mais dinheiro. Não movimenta a economia. "Não contribui para a inovação, a capacidade empresarial, a criação de empregos", diz o economista Evilásio Salvador, professor da Universidade de Brasília.

 

 

A UNIÃO FAZ A FORÇA

Os ultrarricos nem sempre exercem seu poder na política, ou no mercado financeiro. Eles também influem sobre as coisas que você compra. Os produtos e serviços são fornecidos por um número cada vez menor de empresas - porque elas estão se juntando umas às outras. Entre 2002 e 2005, o Brasil teve uma média de 384 fusões e aquisições por ano, segundo estudo da consultoria Price Waterhouse Coopers (PwC). De 2006 a 2009, essa média subiu para 646. De 2010 a 2013, chegou a 783. A concentração empresarial está acontecendo no mundo inteiro, em todos os setores da economia. Por exemplo: no final dos anos 50, a França tinha 20 montadoras de automóveis. Hoje, apenas duas (Renault e Peugeot-Citroën), que foram absorvendo as demais. Na Itália, eram 19. Hoje, só uma (Fiat). Pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, em Zurique, estudaram as 43 mil maiores empresas do mundo - e mapearam todas as relações entre elas. Descobriram que um grupo muito pequeno manda numa parte enorme da economia global. "1% das empresas controla 40% de toda a rede", diz James Glattfelder, um dos autores do estudo. A concentração empresarial não é necessariamente ruim, mas pode ser. Imagine se só existisse uma marca de creme dental, por exemplo. Ela poderia cobrar bem caro e você seria obrigado a pagar, porque precisa escovar os dentes. Na prática, isso não tem acontecido. O mercado brasileiro de cerveja, por exemplo, é dominado pela AmBev (que tem 67,5%). Ela surgiu da fusão entre Brahma e Antarctica, as duas maiores cervejarias do País. Mas desde que foi criada, em 1999, os reajustes no preço da cerveja estiveram próximos da inflação, sem aumentos abusivos. "Hoje a concorrência é muito maior do que no passado", diz o economista Rogério Gollo, especialista em fusões e aquisições da PwC. Com os carros, aconteceu a mesma coisa. Mesmo havendo menos fabricantes, os preços não subiram. A concentração empresarial não está doendo no seu bolso, pelo menos não ainda. Mas uma coisa está.

 

 

EFEITO MATEUS

Os impostos. Quando pensamos neles, costumamos pensar no governo: o dinheiro que ele arrecada e os serviços públicos, como saúde e educação, que fornece em troca. O que pouca gente sabe é que, no Brasil, os ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que o resto da sociedade. Soa incrível, mas é verdade. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra o que acontece. Uma pessoa que ganha dois salários mínimos por mês gasta 53,9% da sua renda com impostos, que estão embutidos nos produtos que ela compra. Tem de trabalhar 197 dias por ano só para pagar impostos. Já alguém que recebe 30 salários mínimos paga apenas 29% - e trabalha 106 dias, quase a metade do tempo, para sustentar o governo (veja quadro na página ao lado). Isso acontece porque, ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, os impostos brasileiros estão mais concentrados nos produtos que as pessoas compram, e não no dinheiro que elas ganham. E essa característica é uma máquina de produzir desigualdade: porque os impostos tomam mais dinheiro daqueles que menos têm. "Isso onera os mais pobres, tornando-os mais pobres ainda", diz Evilásio Salvador, da Universidade de Brasília. É o que os economistas chamam de Efeito Mateus (uma referência à passagem bíblica Mateus 25, 14-30: "Porque àquele que tem lhe será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado"). Inverter essa lógica é difícil - afinal, os mais ricos têm poder para pressionar os políticos. Mas até alguns deles se dizem dispostos a mudar. O megainvestidor Warren Buffet, terceiro homem mais rico do mundo, sugeriu um plano ao presidente dos EUA. A proposta, que ficou conhecida como "The Buffett Rule" (Regra Buffett), criava um imposto de renda de pelo menos 30% sobre quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano. Isso só afetaria 0,3% das pessoas. Mas arrecadaria US$ 36 bilhões. É um oceano de dinheiro (mais que todo o orçamento do Ministério da Educação brasileiro). A proposta foi à votação no Congresso, e perdeu. Segundo uma pesquisa da CNN, 72% dos americanos eram a favor dela. Se nada mudar, a desigualdade no mundo tende a continuar crescendo (pois r > g, lembra?). É difícil prever as consequências disso. Mas uma delas pode ser a radicalização política. Um estudo feito por três universidades americanas (Columbia, Houston e Princeton) constatou que, quanto maior a desigualdade econômica num país, mais forte tende a ser a divisão entre os seus grupos de esquerda e de direita. E a história sugere que a superconcentração de recursos pode acabar em algum tipo de tumulto. Já aconteceu. Houve um país que passou por um processo muito forte, e muito acelerado, de concentração de renda. Em apenas cinco anos, a fatia do bolo pertencente ao 1% mais rico cresceu 50%. A renda das demais pessoas caiu a ponto de prejudicar sua alimentação - e aumentar a mortalidade infantil em 16% em determinadas regiões do país. Seu líder fazia discursos cada vez mais inflamados, nos quais se dizia "inimigo do capitalismo". Essa nação era a Alemanha. Seu líder, Adolf Hitler. A consequência, a Segunda Guerra Mundial.

Os 67 ultrarricos (1) Bill Gates US$ 80,9 BI - Microsoft - EUA (2) Carlos Slim Helu & família US$ 78,7 BI - América Móvil - México (3) Warren Buffett US$ 68,4 BI - Berkshire Hathaway (investimentos) - EUA (4) Amancio Ortega US$ 58,1 BI - Zara - Espanha (5) Larry Ellison US$ 48,8 BI - Oracle (software) - EUA (6) Charles Koch US$ 41,9 BI - Koch Industries (energia) - EUA (7) David Koch US$ 41,9 BI - Koch Industries - EUA (8) Christy Walton & família US$ 37,9 BI - Walmart - EUA (9) Jim Walton US$ 36,6 BI - Walmart - EUA (10) Mark Zuckerberg US$ 35,5 BI - Facebook - EUA (11) Alice Walton US$ 35,1 BI - Walmart - EUA (12) S. Robson Walton US$ 35,1 BI - Walmart - EUA (13) Michael Bloomberg US$ 34,5 BI - Bloomberg (mídia) - EUA (14) Liliane Bettencourt & família US$ 34.2 BI - L¿Oreal - França (15) Sheldon Adelson US$ 32,1 BI - dono de cassinos - EUA (16) Li Ka-shing US$ 31,3 BI - portos e empresas de plástico - Hong Kong (17) Stefan Persson US$ 30,4 BI - H&M (roupas) - Suécia (18) Bernard Arnault & família US$ 30,2 BI - LVMH (Louis Vuitton) - França (19) Larry Page US$ 29,9 BI - Google - EUA (20) Sergey Brin US$ 29,5 BI - Google - EUA (21) Jeff Bezos US$ 26,9 BI - Amazon - EUA (22) Carl Icahn US$ 25,5 BI - investidor - EUA (23) Michele Ferrero & família US$ 25 BI - Grupo Ferrero (chocolates) - Itália (24) George Soros US$ 24 BI - INVESTIDOR - EUA (25) David Thomson & família US$ 24 BI - Thomson Reuters (mídia) - Canadá (26) Forrest Mars Jr. US$ 23,1 BI - Mars INC. (CHOCOLATES) - EUA (27) Jacqueline Mars US$ 23,1 BI - Mars Inc. - EUA (28) John Mars US$ 23,1 BI - Mars Inc. - EUA (29) Aliko Dangote US$ 23 BI - Dangote Group (açúcar) - Nigéria (30) Lee Shau Kee US$ 22,4 BI - dono de hotéis e imóveis - Hong Kong (31) Steve Ballmer US$ 22,3 BI - Microsoft - EUA (32) Mukesh Ambani US$ 21,8 BI - Reliance Industries (energia e telecom) - Índia (33) Al-Waleed Bin Talal Alsaud US$ 21,5 BI - família real - Arábia Saudita (34) Jorge Paulo Lemann US$ 21,5 BI - 3G Capital (controladora da ambev) - Brasil (35) Phil Knight US$ 21,4 BI - Nike - EUA (36) Michael Dell US$ 21,1 BI - Dell - EUA (37) Jack Ma US$ 21 BI - Alibaba Group (comércio eletrônico) - China (38) Len Blavatnik US$ 19,7 BI - investidor - EUA (39) Dilip Shanghvi US$ 17,9 BI - Sun Pharmaceutical Industries - Índia (40) Leonardo Del Vecchio US$ 17,8 BI - Luxottica (óculos) - Itália (41) Alisher Usmanov US$ 17,5 BI - USM Holdings (mineração) - Rússia (42) Tadashi Yanai & família US$ 17,1 BI - Fast Retailing (varejo) - Japão (43) Paul Allen US$ 17 BI - Microsoft - EUA (44) Masayoshi Son US$ 16,8 BI - Softbank - Japão (45) Michael Otto & família US$ 16,6 BI - Otto GmbH & Co (varejo) - Alemanha (46) Laurene Powell Jobs & família US$ 16,6 BI - Apple, Disney - EUA (47) Theo Albrecht Jr & família US$ 16,5 BI - Trader Joe¿s (varejo) - Alemanha (48) Charles Ergen US$ 16,2 BI - Dish Network (TV por assinatura) - EUA (49) Robin Li US$ 16,1 BI - Baidu (internet) - China (50) Gina Rinehart US$ 15,9 BI - Hancock Prospecting (minérios) - Austrália (51) Anne Cox Chambers US$ 15,8 BI - Cox Enterprises (mídia) - EUA (52) Mikhail Fridman US$ 15,7 BI - Alfa-Bank - Rússia (53) Joseph Safra US$ 15,5 BI - Banco Safra - Brasil (54) Viktor Vekselberg US$ 15,4 BI - Renova Group (energia e telecom) - Rússia (55) Susanne Klatten US$ 15,3 BI - BMW - Alemanha (56) Donald Bren US$ 15,3 BI - Irvine Company (imóveis) - EUA (57) Ray Dalio US$ 15,2 BI - Bridgewater Associates (investimentos) - EUA (58) Luis Carlos Sarmiento US$ 15,1 BI - Grupo Aval (banco) - Colômbia (59) Pallonji Mistry US$ 15,1 BI - Shapoorji Pallonji Group (construção) - Índia/Irlanda (60) Azim Premji US$ 15,1 BI - Wipro (tecnologia) - Índia (61) German Larrea Mota Velasco & família US$ 14,8 BI - Grupo Mexico (mineração) - México (62) Dieter Schwarz US$ 14,7 BI - Schwarz Group (varejo) - Alemanha (63) Ma Huateng US$ 14,7 BI - Tencent (internet) - China (64) Harold Hamm US$ 14,6 BI - Continental Resources (energia) - EUA (65) Lui Che Woo US$ 14,5 BI - Galaxy Entertainment (hotéis e casinos) - Hong Kong (66) Thomas & Raymond Kwok & família US$ 14,5 BI - Sun Hung Kai (imóveis)Properties - Hong Kong (67) Lakshmi Mittal US$ 14,5 BI - ArcelorMittal (mineração e aço) - Índia

 

O que é o Estado Islâmico?

03/09/14 02:10

 
Militantes de uma organização terrorista conhecida anteriormente como Estado Islâmico no Iraque e no Levante declararam, em junho deste ano, um “califado islâmico” no Oriente Médio –chamado agora apenas de Estado Islâmico. Desde então, esses guerreiros se tornaram um dos assuntos mais importantes do noticiário internacional.

Eles foram assunto de uma longa reportagem na Folha (clique aqui para ler) nesta semana. O que não quer dizer que você ainda não tenha dúvidas. O Mundialíssimo blog estreia, hoje, com a lista das perguntas que você talvez tenha vergonha de fazer. Por exemplo:

O que é o Estado Islâmico? É uma organização terrorista que declarou, em 30 de junho deste ano, o controle de um território estratégico entre a Síria e o Iraque. Seus membros estabeleceram, ali, um califado islâmico e têm disputado com os governos regionais.

 

Mas eles surgiram de repente? Não. Esse tipo de movimento extremista foi fomentado ali pela invasão americana de 2003 e pelo progressivo fracasso do governo iraquiano. O projeto faz parte da tendência que inclui, também, a Al Qaeda e outras organizações. Até junho, esses terroristas se chamavam de Estado Islâmico no Iraque e no Levante, abreviado em português EIIL e, em inglês, Isil.

O que é um califado islâmico? É um modelo político surgido no século 7, na península Arábica, a partir da liderança de Maomé, o profeta do islamismo. “Califado” significava “sucessão”. No caso, os líderes muçulmanos que vieram após a morte do profeta.

Profeta? O islamismo surgiu no século 7 a partir da revelação de Maomé, que organizou essa religião e unificou tribos em torno da ideia central de que só há um único Deus, comum ao cristianismo e ao judaísmo. O islã é a revelação feita aos árabes, na península Arábica.

Todo califado é terrorista? Não. Nem todo muçulmano, aliás. As práticas terroristas são específicas de uma interpretação radical do islã que não é mainstream nem foi a regra durante os séculos de islamismo. O fundamentalismo é, na verdade, um fenômeno contemporâneo, reagindo ao secularismo contemporâneo, segundo estudiosos como Karen Armstrong (autora de “Em Nome de Deus”).

Eu deveria me preocupar? Sim. Mas analistas não esperam que o Estado Islâmico se mantenha de fato como um Estado, controlando fronteiras e articulando governos. Os terroristas estão bem armados, mas enfrentam a inimizade de toda a região. Os Estados Unidos têm bombardeado posições do califado, também. Veja abaixo alguns de seus inimigos:

Quem é o líder do Estado Islâmico? Como no modelo do califado histórico, o Estado Islâmico tem um califa –um líder político e religioso. Neste caso, é Abu Bakr al-Baghdadi:

Todos os muçulmanos seguem esse califa? Não. Essa seria a ideia de um califado, como foi o projeto de Maomé e de seus seguidores no início do islamismo. Mas Abu Bakr al-Baghdadi é seguido por uma pequena parcela dos muçulmanos, e enfrenta oposição de todos os Estados islâmicos. Ele não representa o islã.

Pequena parcela, quanto? Os EUA estimam entre 7.000 e 12 mil combatentes. O Estado Islâmico diz que são 50 mil na Síria e 30 mil no Iraque. É difícil ter certeza sobre esse número, já que a região vive em convulsão política.

De onde vem o dinheiro do Estado Islâmico? Essa organização terrorista controla poços e refinarias de petróleo na região, lucrando com seu contrabando. É cobrado também imposto da população. A renda inclui, por fim, o resgate cobrado por reféns e a pilhagem de bancos.

Como posso saber mais sobre esse assunto em uma hora? Assista ao documentário da revista “Vice” sobre o Estado Islâmico. O repórter teve acesso à organização e esteve na capital do califado, Raqqa. O vídeo está abaixo:

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Geopolítica

  

Imperialismo francês invadiu Mali há dois anos para manter controle sobre ex-colônia.

 

O país africano continua sob intervenção francesa com a velha desculpa de “combate ao terrorismo”. 

 

A República do Mali localiza-se na África Ocidental, e uma boa parte sua fica na região que se chama de Sahel. País com fronteiras artificiais, como a imensa maioria dos países africanos, o Mali tem como habitantes pessoas das mais diversas etnias: de negros a árabes, passando pelos tuaregues, um povo bérbere nômade ou seminômade.  

Desde janeiro de 2013, o Mali está sob a intervenção francesa, com o apoio das principais potências imperialistas (EUA, Alemanha e Inglaterra) e também do Conselho de Segurança da ONU.  

A justificativa do presidente François Hollande, do Partido Socialista francês, é o “combate ao terrorismo”. Nada mais falso. Da mesma forma que os Estados Unidos invadiram e ocuparam o Afeganistão e o Iraque, a intervenção do imperialismo francês não tem outro objetivo a não ser o de manter o controle sobre sua ex-colônia e impedir que o povo Tuareg, que luta pela sua autodeterminação, consolide os avanços que conquistaram em sua luta.  

O imperialismo francês fala em impedir que se instale a “barbárie” dos salafistas (facção islâmica tradicionalista). A desculpa da intervenção, a luta contra os “extremistas islâmicos”, não é outra coisa que a luta do imperialismo francês pela manutenção das fronteiras definidas de forma arbitrária quando as potências imperialistas dividiram o continente de acordo com seus interesses. E, no mesmo sentido, para que as suas empresas sigam controlando as fontes de matérias-primas na região. Estamos, assim, diante de uma guerra de agressão colonial, levada pelo imperialismo francês e pela ditadura militar fantoche deste imperialismo, cujo objetivo é o massacre do povo Tuareg.  

Um pouco de história: a independência e os Tuaregs O Mali tornou-se colônia francesa no final do século 19. Em 1960, conquistou sua independência. Apesar de, num primeiro momento, o país estreitar laços com a ex-União Soviética e ser dirigido por nacionalistas, o controle francês da região sempre esteve presente. Após a crise das dívidas dos anos 80, este controle ganhou mais força através da privatização e da presença de multinacionais no ramo da telefonia (Orange), na produção e distribuição de eletricidade (Bouygues), nas minas, na produção do algodão etc.  

Um dos problemas que afeta o Mali, decorrente da presença imperialista na África a partir do século 19, foi justamente a divisão entre povos que habitavam a região, a exemplo dos Tuareg: um povo seminômade que habita a região entre Argélia, Mali, Níger, Líbia, Chade, Burkina Faso e Nigéria. Estima-se que existam cerca de 1,5 milhões de Tuareg. Desde a independência do Mali, os conflitos com os Tuareg foram constantes, pois este povo reivindica a construção de seu próprio Estado nacional. 

 

A primavera árabe e os conflitos no Norte do Mali 

 

A derrota e a morte de Kadafi em outubro de 2011, cuja parte do seu exército era composta por populações Tuareg, teve duas consequências para a região norte de Mali: o deslocamento de uma parte dos combatentes defensores de Kadafi e também o deslocamento das armas para os grupos Tuareg da região.  

Neste sentido, quatro grupos tiveram relativo reforço a partir do final de 2011: o Movimento Nacional de Libertação do Azawad (MNLA), grupo laico que luta pela autodeterminação dos Tuareg; o grupo Ansar Dine, de orientação salafista; o grupo Al Quaeda do Magreb Islâmico (AQMI) e sua cisão, o Movimento pela Unidade e Jihad na África do Oeste (Mujao), ambos de orientação islâmica, também. Os três últimos possuem alguma relação com a Al Qaeda.  

No início de janeiro de 2012, o MNLA começou uma ofensiva tomando as cidades de Ménaka, Aguelok e Tessalit. A esta ofensiva, juntaram-se os outros grupos, principalmente, o Ansar Dine.  

Devido aos conflitos e à instabilidade na região norte do país, o governo de Amadou Toumani Touré fez um deslocamento de tropas para sufocar a luta pela autodeterminação do povo Tuareg. O exército de Mali foi derrotado pela rebelião do povo Tuareg. Um golpe de Estado, em 22 de março, liderado pelo capitão do exército Amadou Sanogo, poucos dias antes das eleições e apoiado pelo imperialismo francês, preparou as condições para a ofensiva imperialista.  

No final de maio, principalmente o MNLA e o Ansar Dine declararam o Estado independente de Azawad, que não foi reconhecido por nenhum outro país da região. Este é o verdadeiro pano de fundo da intervenção: o reconhecimento do MNLA e do Estado Azaward se converteram no centro do problema.  

No intervalo entre o golpe e a proclamação do Estado Azaward, os grupos salafistas iniciaram sua ofensiva, tomando cidades do norte (como Kidal, Gao e Tombuctú). Ao não reconhecer o Estado Azaward, o imperialismo francês cria as condições para o isolamento do MNLA. Em finais de junho de 2012, o Ansar Dine e o Mujao (com o apoio do AQMI) avançaram sobre as áreas controladas pelo MNLA. Este último acabou perdendo controle da região, que passou a ser dominada pelos “islamistas radicais”.  

Enquanto isto, há uma reorganização do próprio governo no Mali, patrocinada pelo imperialismo francês. Em 20 de agosto de 2012, por exigência da Comunidade Econômica dos Estados Africanos do Oeste (CEDAEO), foi formado um governo de “união nacional” (dos 31 ministros, 18 faziam parte do governo anterior ao golpe e quatro ministros são ligados à junta militar que deu o golpe). Este “novo governo” tomou como objetivo o combate aos “rebeldes do norte” para garantir a unidade do Estado do Mali.  

A preparação da intervenção francesa  

Neste cenário de conflito nacional, a França foi aos poucos abrindo as portas para uma intervenção armada. O antigo chefe da diplomacia francesa do governo Sarkozy, Alain Juppé, já tinha declarado, em fevereiro de 2012, que o centro de interesses era a “integralidade do território do Mali”. A política do governo Hollande seguiu o mesmo caminho. Uma das manobras do governo Hollande foi conseguir a aprovação da ONU em outubro de 2012 para a preparação de uma intervenção no Mali. Em 20 de dezembro, o Conselho de Segurança aprovou o envio de militares para “estabilizar” a região.  

Abaixo a intervenção imperialista francesa!  

O verdadeiro objetivo do imperialismo francês é garantir a divisão da África tal como ela foi concebida, há mais de um século, pelos imperialismos: separando povos com tradições e línguas próximas para garantir o bom funcionamento do saque imperialista realizado pelas empresas francesas.  

Neste sentido, são absurdos, as declarações do Partido de Esquerda e do Partido Comunista Francês, principais organizações da Frente de Esquerda, de que a intervenção francesa é “inquietante”, que deveria ser feita sob a bandeira da ONU ou que deve ter somente o papel de “impedir” o avanço dos grupos rebeldes à Bamako, capital de Mali. A questão central, no entanto, não é quem dirige a intervenção estrangeira, mas a própria intervenção imperialista. Mais uma vez, o Partido Socialista se coloca à frente da defesa dos interesses coloniais da França e apoia o seu próprio imperialismo.  

É necessário desmascarar a política do Estado imperialista francês com uma ampla campanha contra a intervenção imperialista e desmascarar a união sagrada que em nome dos “direitos humanos” poderá promover mais uma matança na África.  

Fonte: http://www.pstu.org.br/…/imperialismo-franc%C3%AAs-invade-m… 

 

 

Imperialismo estadunidense e fundamentalismo religioso: uma longa história de amor.

 

 Como esperado depois dos atentados em Paris, todos os principais monopólios de mídia do mundo iniciam sua clássica campanha de medo. O discurso de que a Europa está vulnerável ao terrorismo e o novo reforço ideológico da guerra ao terror fundamentam o fortalecimento dos aparelhos repressivos e de controle do Estado e a restrição das já escassas "liberdades democráticas" na Europa. A retórica enviesada dos monopólios de mídia, que verbaliza os interesses geopolíticos da burguesia, deve ser combatido a todo custo. A melhor forma disso é mostrar como historicamente o fundamentalismo religioso foi incentivado e usado como arma do imperialismo estadunidense para a vitória da contrarrevolução, o sufocamento de levantes de libertação nacional e das lutas anticapitalistas.
                  
             Mostraremos como fundamentalismo religioso é instrumentalizado por parte dos Estados Unidos, traçando uma análise histórica em grandes linhas, abordando a questão a partir da guarida aos fundamentalistas anti-soviéticos na guerra do Afeganistão, a ação dos mercenários na Líbia e Síria e o armamento do Estado Islâmico (ISIS).
                  
            A CIA – agência de inteligência dos EUA – começou a treinar, financiar, armar e apoiar politicamente organizações fundamentalistas anti-soviéticas no Afeganistão. A ex-URSS tinha uma ampla população muçulmana e vários países de maioria muçulmana. A agência norte-americana poderia ter apoiado organizações anti-soviéticas nacionalistas e laicas, mas sua avaliação é que os fundamentalistas cumpririam um trabalho melhor. Osama Bin Laden era um jovem milionário de família saudita, ao saber do início dos enfrentamentos de grupos fundamentalistas contra os “ateus soviéticos” (como a propaganda da CIA assimilada pelos jihadistas chamavam o governo de Moscou) engajou-se na luta. Recebeu treinamento, armas e dinheiro.
              
               Em 1983 é criada a Aliança Islâmica do Mujahedin Afegão (IAAM, em inglês). A IAAM era uma reunião de todas as organizações fundamentalistas contra o poder soviético no Afeganistão. A articulação do imperialismo estadunidense garantiu um governo fundamentalista no Paquistão, Arábia Saudita (até hoje) e continuava fortalecendo a IAAM com fim de fazer do Afeganistão outro aliado fiel pró-EUA. Os príncipes saudistas “doaram” mais de 20 bilhões de dólares aos fundamentalistas afegãos, a CIA veio com um aporte de outros 20 bilhões. O resultado disso é que eles além de forte treinamento, boa estrutura logística, forte rede internacional de contatos e muito dinheiro, eles ainda podiam contar com mísseis anti-helicópteros e outros armamentos de ponta fundamentais na derrota dos soviéticos (o Afeganistão soviético era um país laico, as mulheres tinham os mesmos direitos que os homens e o islamismo dominante não tinha qualquer traço de fundamentalismo) [1].
                   
             A continuação da história de Osama Bin Laden todos sabemos. Ele se voltou contra os Estados Unidos, usou todo dinheiro, armas e treinamento que teve do imperialismo estadunidense para confrontá-lo. O 11 de setembro é apenas um desdobramento dos atos passados da CIA no Afeganistão. Aliás, é sempre importante lembrar que enquanto Bin Laden e seus “guerreiros” fundamentalistas estavam lutando contra os soviéticos, o Times de Londres os chamavam de “combatentes da liberdade” e “rebeldes”. A palavra “terrorista” não compareceu uma única vez. O filme Rambo 3  é uma apologia dos fundamentalistas jihadistas. Evidentemente que o imperialismo só mobiliza sua máquina de propaganda quando seu ex-aliado deixa de ser funcional aos seus planos.
                 
            Antes de prosseguimos para o próximo ponto, é importante lembrar dois fatos históricos. Depois dos atentados de 11 de setembro (muito suspeito!) o Afeganistão foi invadido com a desculpa de capturar Bin Laden, pois este seria chefe de uma super-rede terrorista que supostamente comandaria suas operações do país. O Iraque também foi ocupado militarmente. Saddam teria armas de destruição em massa que precisavam ser neutralizadas. Poucos meses depois da ocupação militar descobrimentos que a história das armas de destruição em massas era falsa - nunca apareceram. Bin Laden nunca foi achado no Afeganistão e a própria existência a Al Qedda com o nível de articulação que os Estados Unidos diz que a organização tem é questionável. Até hoje nenhuma prova consistente dessa suposta organização com estrutura mundial foi apresentada.
                
            Mas vamos voltar ao uso do fundamentalismo religioso como instrumento do imperialismo estadunidense nos seus planos de dominação geopolítica. A chamada Primavera Árabe combinou uma série de revoltas legitimas de amplos segmentos sociais de vários países e ações orquestradas de desestabilização e dominação geopolítica comandadas pela CIA. A Líbia e a Síria são os exemplos mais claros do segundo caso.
                
             Na Líbia a operação foi vitoriosa: Kadafi foi assassinado, toda estrutura do país destruída, centenas de pessoas chacinadas e as reservas de petróleo e gás natural sob comando das empresas monopolistas do setor e do governo do EUA. Mercenários supostamente ligados a al-Qaeda estão envolvidos até o pescoço na operação. É claro que assim como no Afeganistão, os mercenários tiveram aporte financeiro, militar, diplomático e logístico. Convenientemente, ninguém fala mais da situação da Líbia atual. Antes era o país com maior IDH da África, hoje é uma confusão de milícias que  matam-se diariamente enquanto as reservas de combustível fóssil são tranquilamente exploradas [2].
                
             A Síria por ter melhor estrutura militar, apoio geopolítico da Rússia e China e muito mais apoio interno do que tinha o governo líbio consegue resistir bravamente. De novo, a principal força mercenária é composta por fundamentalistas religiosos que não aceitam o fato do governo de Bashar Assad ser laico com convivência harmônica entre todas as religiões (algo raro na região).
                  
             É lógico que os jihadistas que lutam para derrubar Assad são chamados pelos monopólios de mídia de lutadores da liberdade [3]. Vários deles depois de guerrearem na Síria voltam para seus países de origem com treinamento e amplo conhecimento militar para lutar contra os “infiéis” do seu país. Os “terroristas” de Paris participaram da guerra na Síria contra o governo em nome do fundamentalismo religioso. Assad [e o povo sírio] que representa, nesse caso, a luta pela democracia e contra o obscurantismo religioso é taxado de ditador, déspota, sanguinário, etc. [4] (que os monopólios de mídia enquanto armas ideológicas do imperialismo façam isso é normal, bizarro é ver grupos de esquerda como o PSTU e as tendências morenistas do PSOL falaram dos mercenários como se fossem lutadores da liberdade).
                
              Por fim, antes dos atentados em Paris, a moda era apresentar o Estado Islâmico, o ISIS, como principal ameaça à “civilização ocidental” (forma arrogante de os EUA se autodenominarem). Mas o ISIS e seus guerrilheiro fundamentalistas não seriam nada sem sua ligação com os Estados Unidos. Vamos dar a palavra para os deputados iraquianos:
Parlamentares iraquianos querem denunciar na ONU a coalizão liderada pelos Estados Unidos que continua sistematicamente entregando armas aos terroristas do EILL
Deputados do Parlamento do Iraque pediram nesta quinta-feira (01) ao governo em Bagdá quer apresentasse um relatório para as Nações Unidas (ONU) denunciando o fornecimento de armas pelo os EUA ao grupo EILL.Em um comunicado a imprensa estrangeira, o parlamentar iraquiano, Alia Nasif, considera que o lançamento de armas pelos aviões norte americanos em áreas de conflitos são intencionais e as armas sempre acabam em mãos de terroristas, o que contradiz o direito internacional e, portanto o governo iraquiano tem que denunciar perante a ONU [5].
                   Em outro trecho da matéria os deputados se queixam de que a Casa Branca diz que enviam as armas por engano. Seria cômico se não fosse trágico e estivesse ceifando a vida de milhares de pessoas. Na mesma matéria podemos ver a afirmação da que “Os Estados Unidos apoiam o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, e de forma explicita o denominado Exercito Livre Sírio (ELS) e a oposição armada síria, afirmou o parlamentar.” O curioso é que os guerrilheiros curdos, comunistas e laicos, são a principal força de enfrentamento aos jihadistas assassinos do ISIS. O Exército de Libertação Curdo tem forte participação e destaque das mulheres, verdadeiras heroínas da liberdade, enquanto os fundamentalistas apoiados e usados pelo imperialismo estadunidense procuram atribuir a mulher um status sub-humano [6].
                
        Não restam dúvidas. Como mostramos no texto: os principais grupos terroristas-fundamentalistas dos últimos anos foram financiados e apoiados das mais diversas formas pelos Estados Unidos para cumprir determinadas funções dentro da estratégia imperialista de dominação geopolítica (agindo enquanto representante e organizador mundial do capital). Portanto, a “guerra ao terror” não passa de uma estratégia ideológica para justificar expansões neocoloniais, invasões militares e controle interno do próprio povo estadunidense. O papel dos monopólios de mídia enquanto sustentáculo disso tudo é fundamental.
                 
                 Poucos meses atrás um drone – avião teleguiado – bombardeou uma festa de casamento no Iêmen. A ação assassinou doze pessoas, todas civis [7]. A barbárie foi noticiada, mas quase nenhuma repercussão foi dada e a notícia já foi esquecida. Com a desculpa de atacar uma base da Al Qedda foram mortas brutalmente pessoas totalmente inocentes. Os monopólios de mídia não chamam isso de assassinato, atentado, chacina, etc. Compare a repercussão midiática dos mortos em Paris e dos mortos no Iêmen. A "repercussão" nunca é inocente, fortuita, espontânea. Existem razões políticas, geopolíticas, ideológicas e econômicas muito claras para o diferencial de repercussões dos "acontecimentos". Enfim, o fundamentalismo religioso – assim como o tráfico internacional de drogas – é usado como instrumento político-militar de ação do imperialismo e ainda é mostrado como um inimigo a ser combatido para fundamentar o fortalecimento do poder repressivo do Estado internamente (contra as classes trabalhadoras) e justificar e legitimar ideologicamente as ações militaristas do imperialismo.
Notas
[1] – http://outraspalavras.net/posts/como-os-estados-unidos-criaram-bin-laden/
[2] – http://pt.cubadebate.cu/opinioes/2011/09/02/como-al-qaeda-chegou-ao-poder-em-tripoli/
[3] – http://correiodobrasil.com.br/destaque-do-dia/eua-infiltram-mercenarios-na-siria-fonteira-paises-vizinhos/671661/
[4] – http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/387792/assad-diz-ter-capturado-mercenarios-estrangeiros
[5] – http://www.orientemidia.org/em-sucessivos-enganos-os-eua-continuam-fornecendo-armas-ao-estado-islamico-isis/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook&utm_campaign=em-sucessivos-enganos-os-eua-continuam-fornecendo-armas-ao-estado-islamico-isis
[6] – http://www.esquerda.net/artigo/mulheres-curdas-resistencia-e-vida/34968
[7] - http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,drone-dos-eua-mata-13-convidados-de-casamento-no-iemen,1107772

 

 

 

PENSANDO AS INDEPENDÊNCIAS NA AMÉRICA LATINA

 

Muitas vezes, os processos de independência da América Latina não são abordados de forma adequada nas aulas de história, seja pela falta de tempo, seja pela complexidade do conteúdo – que pode causar algumas confusões.
Este texto, tem a pretensão de fornecer um apoio a estudantes e professores que tem dificuldade de abordar, estudar e compreender o período das independências, que, na maioria das vezes, acaba sendo resumido à ação de alguns “personagens heróicos”, como Bolívar, na Venezuela, e San Martín, na Argentina.

 

Mapa antigo da América Latina
Neste texto será abordado apenas as independências da América Latina de colonização espanhola. Visto que, estas são, muitas vezes, relegadas a um “segundo plano” frente a independência das Treze Colônias inglesas e a do Brasil.
1. Contradições internas e externas.
Geralmente, ao se tratar das independências da América Latina, é colocada a tradicional contradição dos elementos locais, os criollos, contra os elementos externos: funcionários e governantes (corregidores e vice-reis) vindos da Espanha. Embora esta situação seja, de fato, verídica, ela sozinha não explica os motivos e o posterior desenvolvimento dos movimentos.
Os criollos eram a classe dominante na América Colonial. Eram donos de terras e minas, de trabalhadores escravizados e de indígenas submetidos a trabalhos servis. É bem verdade que os criollos eram incomodados pelos funcionários coloniais – muita vezes corruptos. 
As reformas boubônicas (século XVIII), tentaram adequar algumas ideias iluministas de racionalidade às práticas de monopólio mercantilistas – reforçando assim o poder colonial. Os criollos passaram a ser vigiados de perto pelos funcionários espanhóis: o objetivo era evitar o contrabando e assegurar o máximo de controle possível às atividades produtivas exercidas pelos criollos; garantindo à Coroa os tributos vindos de impostos cobrados nas colônias. Sendo assim, as reformas boubônicas podem ser analisadas no sentido de “dividir para manter a dominação”: uma vez que dividiu as colônias em novos vice-reinos e com  novos portos abertos ao comércio (comércio feito dentro da lógica do exclusivo metropolitano  – que muitos chamam de “pacto colonial”[1]).
A rivalidade entre criollos e funcionários metropolitanos era, em última análise, um conflito “externo”: pois envolvia basicamente as relações de comércio entre os criollos, entre metrópole e outros países. As ideias liberais estavam surgindo e os criollos não suportavam mais ser asfixiados pelos sistema colonial.
Do ponto de vista interno, na dinâmica das próprias colônias, além dos criollos, que são a elite da sociedade, existem os já mencionados índios, trabalhadores escravizados, e uma grande massa de mestiços que tinha seu acesso restrito em muitos lugares (como igrejas por exemplo) e certas profissões. A maioria dos indígenas era submetida a trabalhos servis (nas fazendas e nas minas, a mita). Africanos eram submetidos a escravidão no Brasil, Colômbia (na época colonial Nova Granada), Venezuela e, principalmente nas Antilhas. Os mestiços, marginalizados, trabalhavam onde podiam: em geral viviam de empregos assalariados nas grandes cidades ou como peões nas regiões de pecuária extensiva (Rio da Prata – Argentina, Uruguai – e Rio Grande do Sul, principalmente). Todos estes grupos sociais vivendo em um mesmo espaço gera tensão. Volta e meia esta tensão virava revolta: tal como o movimento indígena de Tupac Amaru em fins do século XVIII. Tupac Amaru (que embora índio, era de uma antiga família da nobreza inca e foi educado no melhor estilo europeu em uma universidade do Peru) liderou um poderoso exército de indígenas que matou um governador chamado Arriaga.
Tupac Amaru 
A revolta de Tupac Amaru é bastante reveladora sobre as tensões sociais. Ao mesmo tempo que pregava um “retorno ao passado”, das velhas tradições incaicas, também mostrava a ojeriza aos elevados impostos do sistema colonial. O que explica a brutalidade com que a revolta de Tupac Amaru foi dizimada pelos exércitos criollos (Tupac teve a língua cortada e foi esquartejado em praça pública) é a participação popular de índios, mestiços... e até mesmo de alguns criollos, mais pobres e insatisfeitos.
Nesta complexa contradição interna-externa, os movimentos de independência na América espanhola se iniciam um tanto quanto “caducos”. Basta citarmos o exemplo do levante de Francisco Miranda na Venezuela em 1806. Miranda, um criollo de ideias radicais que lutou nos Estados Unidos e na França, conseguiu apoio inglês e desembarcou na costa da Venezuela. Ele e seus seguidores acreditavam que ao brabar um grito de independência, o povo iria se juntar à sua causa. Mas o que ocorreu foi o contrário: o povo não se manifestou; os criollos reagiram e o movimento de Miranda foi logo debelado.
Um exemplo que ilustra muito bem esta contradição interna entre criollos e as classes perigosas (como eram chamados indígenas, negros e mestiços) nos processos de independência é o que ocorreu em Quito (atual Equador) em 1810. Neste ano, enquanto os criollos se reuniam numa Junta de Governo e debatiam a possibilidade de uma emancipação, índios e mestiços se revoltaram contra a Junta. Os criollos exploravam diretamente os indígenas, e não o rei da Espanha – que vivia longe, do outro lado do imenso oceano... Se havia algum culpado pela sua miséria, eram os criollos, pensavam indígenas e mestiços. A partir daí, podemos perceber como o próprio sistema colonial criava estas contradições internas. Também é conveniente lembrar do movimento de José Tomas Boves, um dos grandes inimigos de Bolívar. Boves, que era espanhol e pertencia a uma categoria social de fazendeiros criadores de gado (llanos) reuniu uma massa de camponeses, pobres, mestiços e negros que em nome do rei da Espanha ocupou terras e as distribuiu para seus seguidores miseráveis. O movimento de Boves é um autêntico movimento de pobres contra ricos.
Ainda podemos citar o exemplo do primeiro movimento de independência do México (Nova Espanha) liderado pelo padre Miguel Hidalgo. Agregando camponeses – em sua maioria indígenas ou mestiços – Hidalgo formou um exército de cerca de 80 mil pessoas com o objetivo de chegar a Cidade do México. Seu lema era “viva o rei, abaixo o mal governo!”. Seu estandarte era a Virgem de Guadalupe. E seu objetivo era dar terra aos indígenas e por fim ao regime de castas. Mais uma vez os criollos não poderiam deixar o povo tomar as rédeas da independência e o movimento de Hidalgo foi temporariamente abalado; ressurgindo mais tarde com um de seus seguidores, o também padre José Maria Morelos.
2. Influências
Os livros didáticos geralmente apontam como as grandes influências dos movimentos de independência a Revolução Francesa de 1789 e o pensamento iluminista. A elite criolla, urbana e bem instruída nas universidades americanas e europeias, tinha acesso a leituras iluministas e aos seus principais expoentes (Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Smith). Os criollos mais radicais, tinham sua admiração por Marat, Robespierre e Saint-Just. O fato é que a independência das Treze Colônias em 1776 e a Revolução Haitiana (1794-1804) devem ser considerados como influências muito mais decisivas do que a Revolução Francesa.
Em primeiro lugar, a Espanha era aliada da França. Foi somente quando o absolutista Fernando VII subiu ao trono, após uma trama palaciana, que o governo francês (na época a ditadura militar de Napoleão) resolveu invadir o país para não correr o risco de perder um aliado. A solução que Napoleão encontrou foi colocar no trono da Espanha seu irmão, José, em 1808. Assim, ele garantia um país aliado na Europa e também as colonias espanholas na América como possível área de dominação francesa. Por isso que após 1808 os movimentos de independência ganham força. Ao mesmo tempo que os espanhóis passam a guerra aberta contra os invasores franceses e o “rei” francês no trono de seu país. 
Mapa das Treze Colonias.
A independência das Treze Colonias é um fato que influênciou não só na América mas também a própria Revolução Francesa. Ocorre que, após os Estados Unidos consolidarem sua independência, eles adotaram uma postura “isolacionista”, enquanto a França, fazia questão de expandir seus ideais para o mundo. Mas a postura isolacionista dos Estados Unidos, não impediu que se tornasse um exemplo para os criollos, principalmente aqueles que queriam uma “independência sem mudanças”: o país rompeu com a Inglaterra e continuou com a escravidão. Uma independência que começou radical, mas terminou com um acordo entre elites (Constituição de 1787, ainda hoje em vigor, com várias emendas).
Por outro lado, a Revolução Haitiana, que se estende de 1794 até 1804, é um exemplo radical. Negros escravizados levantaram-se contra os brancos proprietários de terra pra proclamar, ao mesmo tempo, a independência e o fim da escravidão! Todos os países da América conheceram a escravidão e o pesadelo de qualquer dono de escravizados é a revolta destes trabalhadores contra sua autoridade. O lema do Haiti é “a união faz a força” e, de fato, se escravizados se unissem, teriam força o suficiente para pôr abaixo qualquer sistema colonial. Não é a toa, que a Revolução Haitiana resultou num “bloqueio continental americano” ao Haiti. De acordo com Jacob Gorender: "As dificuldades do Haiti não se deveram, com o passar do tempo, somente ao domínio da agricultura de subsistência e à ausência de perspectivas econômicas elevadas. Deveram-se também, e não menos, à quarentena, que lhe impuseram até mesmo as nações latino-americanas recém-independentes"[2] 
3. Os projetos de independência
As independências se desenvolvem num longo e complexo processo que vai de (mais ou menos) 1808 até 1824 (batalha de Ayachuco – vitória final dos criollos contra os exércitos espanhóis na Bolívia/Alto Peru). No decorrer destes anos, os criollos não esboçaram apenas um, mas vários projetos de independência. 
Primeiramente, temos que considerar que haviam vários “graus” de criollos. Havia, obviamente, os mais abastados, donos de terras e minas que possuíam levas de mão de obra a sua disposição (escravizados, livres e servis como a maioria esmagadora dos indígenas). Mas também havia os criollos, que embora tenham um pedaço de terra, não eram tão ricos e viviam modestamente. 
Esta situação, muitas vezes aproximava alguns criollos às classes perigosas e isto fez com que projetos “alternativos” ao “independência sem mudanças” da elite criolla, se tornassem um problema maior para os ricos do que a própria resistência espanhola na época das guerras de independência.
Exemplos não nos faltam. Um deles é o projeto de Hidalgo e Morelos, ao qual acabamos de nos referir. Ambos eram padres do clero secular, sendo assim tinham contato com os mais desfavorecidos pelo sistema colonial, explorados pelos ricos criollos. Hidalgo foi morto em 1811, mas seu discípulo, Morelos, continuou seu projeto de independência no México. Um projeto radical e socializante, que pregava a distribuição de terras, o fim da escravidão e dos tributos e, principalmente, a soberania popular.
Morelos representava um perigo tão grande para a elite criolla, que estes acabaram adotando um modelo conservador de independência semelhante ao do Brasil, com um imperador: o militar Agustín Iturbide. Só para citar um exemplo, Morelos convocou uma assembleia constituinte para o México, o que despertou a fúria da elite criolla. Ao invés de adotar a constituição de Morelos (redigida sob inspiração dos ideais citados acima: distribuição de terras, o fim da escravidão, dos tributos e soberania popular), os criollos resolveram adotar a constituição espanhola de 1813!
O movimento mais organizado e radical, que representou a mais original alternativa às independências conservadoras da elite criolla, foi a Liga Federal de José Artigas.
José Artigas era um criollo de origem modesta que conseguiu entrar numa milicia chamada corpo de blandengues. A função dos bandengues era policiar as terras da Banda Oriental (atual Uruguai) contra os indígenas. Mas ao entrar em contato com os indígenas, Artigas e sua tropa passaram a mediar conflitos e não mais expulsa-los das terras. Assim, ele percebeu que faltava terra para os índios... e terra para eles havia, sempre houve.
Quando o movimento de independência iniciou em Buenos Aires (1810), Artigas foi até a capital do vice-reino da Prata (que na época agregava o Paraguai, Uruguai, Bolívia, além da própria Argentina) lutar contra os espanhóis. Quando volta para a Banda Oriental, requisita auxílio dos buenairenses para libertar Montevidéu dos monarquistas. Mas a ajuda não vem. Artigas acaba formando um exército – de criollos, mestiços, negros e índios – que lutam juntos contra o poder colonial. Por fim, os artiguistas tomam Montevidéu, mas inicia a reação contra seu movimento.
De 1813 até 1820, Artigas e seus seguidores formam a Liga Federal dos Povos Livres. Uma república federativa que englobava as províncias do norte da atual Argentina, o Uruguai e parte do Rio Grande do Sul. Artigas distribuiu terras. O seu lema era “que os mais necessitados sejam os maiores beneficiados”. Mas era difícil por em prática suas ideias, isto porque, Artigas e seus seguidores, lutavam paralelamente contra as tropas de Buenos Aires, contra os luso-brasileiros e contra os exércitos da Espanha! Podemos dizer que a independência da Argentina (só proclamada em 1816) é uma reação contra Artigas.
Embora estes projetos alternativos não tenham tido uma continuidade, falar sobre as independências sem cita-los, é, no mínimo, ocultar uma parte essencial deste período da história americana.
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Os tópicos e as analises acima, são apenas recortes. Foram feitos desta forma para facilitar a compreensão dos processos; e assim dar um subsídio empírico para se pensar os movimentos e projetos de independência. Outras leituras, de outros historiadores, são possíveis, sem dúvida. Cabe, neste sentido, levar em conta a criatividade de cada professor/historiador.
É importante que se diga que o conteúdo das independências da América Latina (de colonização espanhola) é um conteúdo que permanece relegado a um segundo plano. Muitos livros didáticos contribuem para isto, principalmente porque adotam a velha “história dos grandes personagens”. Bolívar é geralmente o mais citado, mas pouco se compreende a complexidade deste personagem – que serviu, por muito tempo de modelo ao pensamento conservador da Venezuela, até ser “ressuscitado” numa leitura de esquerda por Hugo Chavez.
Tratar com maior abrangência dos processos de independência da América, como um todo, é apenas uma parte da luta contra o eurocentrismo na história – principalmente na sala de aula. 
Notas:
[1] O termo “pacto colonial”, disseminado por uma historiografia antiga, mas ainda cheia de força, não é condizente com a situação objetiva das relações metrópole-colônias. Isto porque a ideia de “pacto” sugere que havia um acordo amigável entre colonos/criollos e os governantes metropolitanos. Uma vez que a colonização europeia da América está dentro das práticas mercantilistas, em que o governo (o Estado Absolutista) se esforçava para manter o controle sobre todas as atividades econômicas, não se pode dizer que houve um “pacto amigável” e sim uma “imposição” característica da própria lógica mercantilista: os colonos tinham a função de enriquecer a metrópole, nada além disso – essencialmente não era algo aberto a negociações. Sendo assim, o termo mais correto a ser utilizado é sistema colonial, uma vez que “pacto” da a ideia de “unidade”, enquanto que “sistema” parece abranger de forma mais adequada a situação das diversas práticas que mantinham as relações metrópole-colônias. Ademais, esta questão de “pacto colonial” pode ser debatida nas salas de aula e nos grupos de estudo.
[2] O épico e o trágico na história do Haiti. Estudos Avançados 18 (50), 2004, p. 301.
  
Sobre o Autor:
Fábio Melo
Fábio Melo. Membro Permanente e fundador do Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata. Pesquisa sobre História Social da América e Educação na América  (América Latina e Estados Unidos). Produtor e radialista do programa  "História em Pauta" na rádio 3w. Tem diversos textos escritos sobre  educação, cultura e política. 

 

Fonte: http://geaciprianobarata.blogspot.com.br/2014/05/pensando-as-independencias-na-america.html

 

 

 

“A Bolívia é o país que mais crescerá na América Latina”, elogia FMI

 

 

Segundo informe da organização, o país teve com os oito anos de Evo Morales melhorias em seus índices sociais e econômicos – provável consequência de um rompimento das políticas econômicas pós-neoliberais recomendadas pelo próprio FMI e o Banco Mundial

Por Vanessa Martina Silva, em Opera Mundi

“A Bolívia é o país que mais crescerá na América Latina, junto com a Colômbia”, diz o informe mais recente do FMI (Fundo Monetário Internacional), publicado nesta terça-feira (07). Apesar da economia em expansão, o maior desafio do país nos próximos anos será superar totalmente a pobreza extrema, que, segundo a ONU atinge 25,4% da população. Questões econômicas, infraestrutura e os desafios sociais que persistem no país estão entre os pontos centrais das eleições, que serão realizadas neste domingo (12) para escolher presidente, vice-presidente, senadores e deputados no país.

Em termos econômicos, o país resistiu melhor que grandes economias latino-americanas à crise financeira internacional iniciada em 2008. O movimento de combate aos efeitos da crise foi feito pela forte presença de empresas públicas, que foram ampliadas, em todos os estados do país de forma descentralizada e contribuíram para fortalecer o mercado interno.

“Há vários anos, o desempenho macroeconômico da Bolívia tem sido muito bom. Essa performance, ativamente apoiada em políticas sociais, ajudou a aumentar em quase três vezes a renda média da população e reduziu a pobreza e a desigualdade”, disse a economista do FMI Ana Corbacho, em coletiva de imprensa concedida no começo do ano. Para 2014, a estimativa do organismo é de que o país cresça 6,4%.

Para entender o cenário econômico boliviano e os desafios que deverá ser enfrentado pelo novo governo, Opera Mundi conversou com o economista, diretor do Celag (Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica) e professor de pós-graduação da Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), Alfredo Serrano, que está em La Paz para acompanhar o processo eleitoral no país andino.

O informe do Celag sobre as eleições bolivianas, publicado no último mês, avalia que o desafio para o próximo mandato presidencial será manter o crescimento sustentável, diminuir o desemprego, superar a pobreza e a pobreza extrema, melhorar os índices de saneamento e expandir a infraestrutura com a criação de estradas e o fornecimento de gás para o interior do país.

Para Serrano, a avaliação positiva do FMI com relação à Bolívia é consequência de um rompimento das políticas econômicas pós-neoliberais recomendadas por organismos internacionais como o próprio Fundo e o Banco Mundial. “[Isso] Gerou efeitos e resultados que não são os defendidos fundamentalmente pelo FMI”, avalia o economista.

Após nacionalizar setores estratégicos, o país ordenou as contas, redistribuiu excedentes econômicos com políticas sociais e isso “teve um efeito dominó no consumo interno, além de satisfazer necessidades básicas, que antes eram insatisfeitas. Além disso, o modelo adotado hoje permite ao país acumular uma reserva que se encontra acima da média regional em termos do PIB, o que aplaude o FMI”, avalia Serrano.

Crise econômica

Os números positivos se devem também à particularidade da economia boliviana. “Apesar de Brasil e Argentina terem grandes ‘translatinas’ [empresas que operam na América Latina e no Caribe], dependem muito do capital financeiro internacional. Os modelos produtivos também são estruturas concentradas em poucas mãos. Já a Bolívia tem a vantagem de ter um modelo econômico arraigado na produção comunitária pré-capitalista com certa logica de intercâmbio capitalista”, esclarece Serrano. A economia boliviana é, portanto, pouco dolarizada. Nos últimos anos, inclusive, a tendência é de que a moeda nacional cresça, fortalecendo ainda mais a economia, observa.

Apesar dos avanços obtidos no país, Serrano considera que não é possível falar, ainda, em uma entrada massiva de pessoas na classe média, embora “seja certo que as pessoas estão em condição melhor do que antes”. Para o especialista, o grande desafio para o futuro da Bolívia é modificar a matriz produtiva do país para satisfazer, de forma sustentável, a nova demanda interna e assim “não depender fundamentalmente das importações, como sucede em outros países da América Latina”.

Integração regional

A integração latino-americana é outro ponto importante dentro desse processo, aponta o professor. “A Bolívia entendeu que qualquer mudança interna exige uma fórmula diferente nas relações exteriores. O governo entende que a recuperação da soberania é a única maneira de transformar o modelo econômico interno de forma virtuosa e entende que só se pode resistir ao capital transnacional a partir de uma grande aliança regional. Isso é uma das coisas que Bolívia levou a cabo com muito afinco”.

No âmbito regional, a integração é o caminho para se proteger de certas ofensivas a partir de alianças com Estados como Brasil, Argentina, Venezuela e Equador, avalia o economista. “É fundamental assumir um papel protagonista na região e considero oportuno participar do Mercosul diferente da era neoliberal, com rosto mais humano”. Ele conclui que a aproximação com o G-77 + China “mostra como a Bolívia deixou de ser um país isolado, satélite dos países capitalistas mundiais, para ser parte ativa das novas transições geopolíticas no âmbito mundial”.

 

Foto de Capa: Diálogos do Sul 

 Fonte: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/10/bolivia-e-o-pais-que-mais-crescera-na-america-latina-elogia-fmi/

 

 

 

Escravos da moda. Quem se importa com a procedência?

 

   

O trabalho degradante deixa muita gente indignada, mas, na hora de comprar roupa nova, poucos se preocupam se a loja ou a marca tirou algum proveito dessa prática

 

19/08/2014 - Cida de Oliveira - de São Paulo (SP) 

 

A foto de um menino paquistanês costurando uma bola de futebol da Nike em 1996, nas páginas da extinta revista Life, causou indignação. No mesmo ano, o documentarista norte-americano Michael Moore filmou conversa com o presidente da multinacional, Phil Knight, para o documentário The Big One. “Você não tem problema de consciência? Sabe como vivem seus empregados na Indonésia?”, questionou. O filme foi exibido em 1998, quando as condições degradantes de trabalhadores da companhia em países da Ásia já eram conhecidas e a marca tinha se tornado sinônimo de exploração. 

No mesmo ano, ativistas dos direitos humanos aproveitaram o Mundial da França para denunciar o trabalho de crianças na produção de bolas e chuteiras. Com ajuda da internet, consumidores de todo o mundo boicotaram produtos da marca, derrubaram executivos e ações nas bolsas. Para limpar a barra, a empresa passou a controlar as relações de trabalho nas subsidiárias e a investir em marketing

No final de 1999, curiosamente, um dos principais garotos-propaganda da marca, o ex-jogador Ronaldo, foi nomeado embaixador do Programa da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), para ajudar a disseminar ações de combate às desigualdades. Mesmo assim, a companhia não conseguiu se desvencilhar da imagem negativa. O caso Nike é emblemático no mundo quando se trata de demonstração de força do consumidor. 

No Brasil, é a Zara. Em 2011, a grife espanhola ganhou as manchetes não pelo sucesso da nova coleção de roupas caras, mas pelo trabalho análogo à escravidão flagrado por fiscais na cadeia produtiva. Em São Paulo, bolivianos ganhavam R$ 2 por peça produzida em oficinas de costura terceirizadas para a AHA, que por sua vez prestava serviços para a Zara no Brasil. Os executivos da empresa tentaram desfazer o vínculo. O episódio obteve destaque nas redes sociais e a marca foi alvo de protestos e boicote. “Por mais que eu gostasse de usar, cheguei a deixar de lado uma peça da marca que ganhei de presente. Em vez de status, a roupa passou a dar vergonha”, diz a recepcionista paulistana Bruna Araújo, 17 anos. 

O barulho levou acadêmicos a estudar o assunto. Os professores Cintia Rodrigues de Oliveira, Valdir Machado Valadão Júnior e Rodrigo Miranda, da Faculdade de Gestão e Negócios da Universidade Federal de Uberlândia (MG), analisaram comentários de internautas sobre o caso. A conclusão é que o consumidor entende que o crime corporativo é compensador do ponto de vista financeiro e que a empresa deve ser fiscalizada intensamente pelo poder público e punida com multas severas. E mais: que a população aceita tal crime ao continuar comprando da empresa. 

Em abril, a grife foi responsabilizada pelo MPT. A justificativa é que, como detentora do poder econômico relevante na cadeia produtiva, pode proteger os 15 mil trabalhadores subordinados a ela e não apenas os das pequenas oficinas. A Zara anunciou que vai recorrer, alegando que não obteve vantagem financeira com a irregularidade cometida pela AHA – que não foi investigada, julgada, nem punida. Esta não é a única a ser envolvida em casos assim. 

Nos últimos quatro anos, fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) flagraram trabalhadores bolivianos em condições degradantes em oficinas de costura fornecedoras de marcas populares e caras. Autuada 48 vezes em 2010 e multada, a Marisa assinou um TAC e afirma fiscalizar, mas não divulga os resultados. Absolvida em primeira instância, questiona o governo na Justiça por publicar a “lista suja” do trabalho escravo. O MTE recorre da absolvição. 

A C&A não chegou a receber autuação formal, mas passou a fazer auditorias surpresa e divulga na internet casos de trabalho infantil e pagamento abaixo do salário mínimo. A Collins assinou TAC e passou a fiscalizar os parceiros. Já a 775 não fiscaliza nem informa as ações para evitar o trabalho escravo na produção. Com oficinas flagradas em 2011, as Pernambucanas se recusaram a assinar acordo para sanar os problemas e não publicam dados das auditorias que garantem fazer. A Gregory que, em 2012, recebeu 25 autos de infração, não assinou TAC e não diz o que faz para combater o trabalho escravo. 

No ano passado, foi a vez de oficinas da Bo.Bô, Le Lis Blanc e John John, e da Cori, do mesmo grupo de Emme e Luigi Bertolli. As marcas não declaram ações contra trabalho escravo ou se descartam fornecedores. Em maio passado, fiscais encontraram bolivianos costurando para a M. Offi cer – o que já tinha acontecido em novembro de 2013. Em julho, o MPT pediu à Justiça que responsabilize a marca por trabalho escravo, além de multa de R$10 milhões por danos morais e que seja proibida de atuar no estado de São Paulo. 

Em maio, durante desfile da São Paulo Fashion Week, modelos e estilistas da Ellus subiram à passarela com camisetas com a frase: “Abaixo este Brasil atrasado”. A grife que “desabafava”, como alegaram os idealizadores, é a mesma denunciada em 2012 pelo MPT por trabalho análogo à escravidão, tráfico de trabalhadores e trabalho indígena. 

O problema é outra face do trabalho degradante, que já foi mais comum no campo. Em 2013, pela primeira vez, o número de trabalhadores resgatados em operações de fiscalização foi maior em áreas urbanas. 

Pressão 

O escândalo na moda e os boicotes intensificaram o debate em torno da questão. A ponto de, segundo o jornalista Leonardo Sakamoto, pressionar a instalação de CPIs estaduais e em nível nacional, que influíram na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 81/2014, no final de maio, pelo Senado, depois de quase duas décadas de debates. 

A PEC prevê o confisco de propriedades em que esse crime for encontrado e a destinação à reforma agrária ou a programas de habitação urbanos. A emenda conceitua como escravo o trabalho exaustivo, a jornada exaustiva, o impedimento de ir e vir, mas ainda depende de regulamentação, o que deve ser fonte de novos embates no Congresso. 

Coordenador da organização Repórter Brasil, que mantém um portal reconhecido pela atuação em prol do trabalho decente, o jornalista Leonardo Sakamoto diz que o boicote é um instrumento poderoso contra o trabalho escravo por afetar mais que as vendas. Por mais passageiro que seja, arranha a marca e influencia investidores, o maior patrimônio das empresas, como ocorreu com a Nike e, agora, com a Zara. 

No entanto, para Sakamoto, o consumidor se preocupa é com qualidade e preço. “Em geral, como não gosta de ser enganado, fica indignado quando paga caro por um produto e descobre que não há garantia social. É aí que fica indignado, insatisfeito e passa a boicotar”, diz. 

“É inadmissível as grifes explorarem mão de obra e ainda venderem roupas tão caras. Você não paga menos de R$ 400 em algumas camisetas de marca que pagam R$ 10 por peça bordada e que lançam coleções em desfiles como a São Paulo Fashion Week”, reclama a pesquisadora paulistana Ana Paula Nascimento, 41 anos. 

Consultor de conteúdos e metodologias do Instituto Akatu, associação que defende consumo consciente para a sustentabilidade, Dalberto Adulis concorda com Sakamoto, mas entende que o consumidor está ficando mais crítico, que desconfia das promessas das empresas e prefere marcas comprometidas com o meio ambiente e que oferecem boas condições de trabalho a empregados. E o comportamento, em franca evolução, depende de informação para ser ainda mais engajado. 

“O consumo consciente requer educação e informação que nem todo brasileiro tem. Quando todos tiverem, vão cobrar e pressionar mais”, afirma. A professora Silvia Cristina Gomes, 31 anos, e o namorado, o militar Paulo Henrique de Carvalho, 23, reclamam justamente disso. Eles contam que, muitas vezes, pensam no trabalho degradante na produção das roupas que usam, o que, porém, não faz diferença na hora de comprar. “Nunca me lembro disso nem deixei de comprar por essa razão. Compro conforme a promoção, o preço, o produto. Só depois, vou pensar no trabalho escravo”, diz Silvia. “A gente vê a roupa na loja, no mostruário, mas não tem como saber a procedência”, completa Paulo. 

Adulis, do Akatu, destaca que os consumidores de menor renda, que mais se identificam com os trabalhadores, são os que acabam se beneficiando com a oferta de produtos mais baratos em função da exploração da mão de obra. “A questão é como assegurar preço para produto com atributo de sustentabilidade ambiental, social e trabalhista que o mantenha competitivo em relação aos outros.”

“Acho muito triste essa situação; lojas tão grandes, marcas de grife, pagarem tão mal para o trabalhador”, comenta a recepcionista Raimunda Silva, 59 anos, de São Paulo, que afirma nunca ter se arrependido das compras que faz, mesmo em lojas ligadas ao trabalho escravo. “No momento em que estou comprando, com tantos atrativos, nem raciocino.” 

A auxiliar de saúde bucal Maria do Carmo Conceição de Santana, 43 anos, vai além: “Sou meio desligada. E quando compro, estou envolvida com a escolha, não lembro de mais nada, mas acho que trabalho escravo deve ser fiscalizado pelo governo, não pela gente”.  

 

O que é trabalho escravo?  

✓ As dificuldades para erradicar a prática se originam da pobreza. “Gatos” (agentes) aliciam trabalhadores em situação vulnerável em várias regiões do país. As despesas de viagem já começam a endividar o trabalhador, que ainda será “aprisionado” a custos com alimentação e medicamentos, por exemplo 

✓ O artigo 149 do Código Penal considera crime reduzir alguém à condição análoga à de escravo, “quer submetendo-se a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto” 

✓ Para a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o artigo 149 é consistente com a sua Convenção 29. A entidade considera o Brasil um país “fortemente comprometido” com o combate à prática da escravidão contemporânea 

✓ Em 27 de maio, o Senado aprovou a chamada PEC do Trabalho Escravo, depois de 15 anos de tramitação. A batalha agora é pela regulamentação. Defensores da PEC temem retrocesso. Pela PEC, podem ser expropriadas, para fins de reforma agrária, áreas nas quais seja registrada ocorrência de escravidão 

✓ Em 1995, o governo iniciou as operações de fiscalização móvel, para erradicação do trabalho escravo. Até 2013, foram 1.572 em 3.741 estabelecimentos, com 46.478 pessoas resgatadas 

✓ No ano passado, pela primeira vez o número de trabalhadores no setor urbano (1.068) foi maior que no meio rural. O Ministério do Trabalho e Emprego credita parte desse resultado ao aumento da fiscalização nessas áreas. Construção civil e setor têxtil concentram ocorrências 

✓ Outras iniciativa no combate ao trabalho escravo no Brasil é a chamada “lista suja”, divulgada periodicamente, com nomes de empregadores que usam a prática. A relação atual tem 549 nomes. Acesse em bit.ly/mte_lista_suja 

✓ O Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo foi criado em 2005 pelo Instituto Ethos, o Instituto Observatório Brasil, a ONG Repórter Brasil e a OIT. No ano passado, surgiu o InPacto, instituto criado para “fortalecer e ampliar” as ações que visam a conscientizar as empresas sobre ocorrência de trabalho escravo na cadeia produtiva. 

 Lojas com sinal verde 

Ajudar o consumidor a conhecer a conduta de algumas das lojas preferidas e fazer escolhas mais conscientes. Esse é o objetivo do aplicativo para celular Moda Livre, iniciativa da organização Repórter Brasil.

Com mais de 5 mil downloads, o aplicativo é destinado a quem gosta de moda, mas não quer que alguém tenha sido explorado para costurar roupas. Traz avaliações de 22 marcas a partir de questionários respondidos pelas próprias empresas. São classificadas com verde aquelas que têm mecanismos de acompanhamento sobre a cadeia produtiva e histórico negativo em relação ao tema. Recebem amarelo as que demonstram ter mecanismos de acompanhamento, mas apresentam histórico desfavorável em casos de trabalho escravo ou precisam aprimorar esses mecanismos. Já o vermelho é para aquelas que não contam com mecanismos de acompanhamento, têm histórico desfavorável ou não responderam ao questionário.

Segundo o aplicativo, que não tem a pretensão de recomendar a compra ou boicote de determinadas marcas, mostram a pior avaliação 775, Bo.Bô, Centauro, Collins, Gregory, Havan, John John, Leader, Le Lis Blanc e Talita Kume. Ficam no nível intermediário Cori, Dzarm, Emme, Hering, Luigi Bertolli, Marisa, Pernambucanas, PUC, Renner, Riachuelo e Zara. A C&A tem a melhor avaliação.

Segundo o coordenador da Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, o Moda Livre vai ser atualizado, com inclusão de outras marcas. Outros setores, como automobilístico e de eletrodomésticos, terão em breve um aplicativo semelhante. 

FONTE: http://www.brasildefato.com.br/node/29539 

  

 

Meridionalismo Geopolítico - Palestra do André Martin no Congresso Nacional Brasileiro

 

 

 

 

 

 

 

 

O que são os Brics?

 

Brics é uma sigla que se refere a Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que se destacaram no cenário mundial pelo rápido crescimento das suas economias em desenvolvimento. O acrônimo foi cunhado e proeminentemente usado pelo economista Jim O'Neill, chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro Goldman Sachs, em 2001. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, estes países não compõem um bloco econômico, apenas compartilham de uma situação econômica com índices de desenvolvimento e situações econômicas parecidas. Em Dezembro de 2010, a Bric convidou formalmente a África do Sul para se unir ao grupo. O convite foi feito por Yang Jiechi, que ocupa a Presidência rotatória do grupo. E a sigla ganhou um S, para África do Sul.

 

Fonte: http://www.geografia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=166

 

 

 

 

 

Mujica, teórico da transição pós-capitalista?

 

 

 

 

Por Outras Palavras

Cada vez mais popular tanto nas redes sociais como na mídia tradicional, o presidente do Uruguai, Pepe Mujica, arrisca-se a sofrer um processo de diluição de imagem semelhante ao que atingiu Nelson Mandela. Aos poucos, cultua-se o mito, esvaziado de sentidos — e se esquecem suas ideias e batalhas. Por isso, vale ler o diálogo que Pepe manteve, no final do ano passado, com o jornalista catalão Antoni Traveria. Publicada no site argentino El Puercoespínentrevista revela um presidente que vai muito além do simpático bonachão que despreza cerimônias e luxos.

Mujica, que viveu a luta armada e compartilhou os projetos da esquerda leninista, parece um crítico arguto das experiências socialistas do século XX. Coloca em xeque, em especial, uma crença trágica que marcou a União Soviética e os países que nela se inspiraram: a ideia de que o essencial, para construir uma nova sociedade, era alterar as bases materiais da produção de riquezas. ”Não se constrói socialismo com pedreiros, capatazes e mestres de obra capitalistas”, ironiza o presidente. Não se trata de uma constatação lastimosa sobre o passado ou de um desalento. Mujica mantém-se convicto de que o sistema em que estamos mergulhados precisa e pode ser superado. Mas será um processo lento, como toda a mudança de mentalidades, e precisa priorizar o choque de valores: tornar cada vez mais clara a mediocridade da vida burguesa e apontar modos alternativos de convívio e produção. Leia a seguir, alguns dos trechos centrais da entrevista:

“A batalha agora é muito mais longa. As mudanças materiais, as relações de propriedade, nem sequer são o mais importante. O fundamental são as mudanças culturais e estas transformações exigem muitíssimo tempo. Mesmo nós, que não podemos aceitar filosoficamente o capitalismo, estamos cercados de capitalismo em todos os usos e costumes de nossas vidas, de nossas sociedades. Ninguém escapa à densa malha do mercado, a sua tirania. Estamos em luta pela igualdade e para amortecer por todos os meios as vergonhas sociais. Temos que aplicar políticas fiscais que ajudem a repartir — ainda que seja uma parte do excedente — em favor dos desfavorecidos. Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar; mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe”.

“A vida é muito bela e é preciso procurar fazer as coisas enquanto a sociedade real funciona, ainda que seja capitalista. Tenho que cobrar impostos para mitigar as enormes dificuldades sociais; ao mesmo tempo, não posso cair no conformismo crônico de pensar que reformando o capitalismo vou a algum lado. Não podemos substituir as forças produtivas da noite para o dia, nem em dez anos. São processos que precisam de coparticipação e inteligência. Ao mesmo tempo em que lutamos para transformar o futuro, é preciso fazer funcionar o velho, porque as pessoas têm de viver. É uma equação difícil. O desafio é bravo. Há quem siga com o mesmo que dizíamos nos anos 1950. Não se deram conta do que ocorreu no mundo e por quê ocorreu. Sinto como minhas as derrotas do movimento socialista. Me ensinam o que não devo fazer. Mas isso não significa que vá engolir a pastilha do capitalismo, nesta altura de minha vida”.

“Não sei se vão me dar bola, mas digo aos jovens de hoje que aprendemos mais com o fracasso e a dor que com a bonança. Na vida pessoal e na coletiva pode-se cair uma, duas, muitas vezes, mas a questão é voltar a começar. E é preciso criar mundos de felicidade com poucas coisas, com sobriedade. Refiro-me a viver com bagagem leve, a não viver escravizado pela renovação consumista permanente que é uma febre e obriga a trabalhar, trabalhar e trabalhar para pagar contas que nunca terminam. Não se trata de uma apologia da pobreza, mas de um elogio à sobriedade — não quero usar a palavra austeridade, porque na Europa está sendo muito prostituída, quando se deixa as pessoas sem trabalho em nome do ‘austero’”.

“Em toda a história do Uruguai, o presidente repartia as licenças de rádio e TV com o dedo. Tivemos a ideia de abrir consultas e processos democráticos baseados em méritos. Pensamos e realizamos! O que certa imprensa diga não me preocupa. Já os conheço. O problema que o diário [uruguaio] El País pode me criticar e se, algum dia, estiver de acordo e me elogiar. Seria sinal de que ando mal”.

[Para ler, na íntegra (em castelhano) a entrevista com Pepe Mujica, clique aqui]

 

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/01/mujica-teorico-da-transicao-pos-capitalista/

 

 

  

O planeta possui 7 bilhões de pessoas. Dados espantosos sobre a distribuição da riqueza:

1 - Qualquer pessoa que possua bens em valor total superior a R$  8.600,00 (uma moto usada) possui mais riqueza do que 3 bilhões e 500  milhões de pessoas no mundo inteiro. Está na metade superior da posse de riquezas.
2- Quem possui bens em valor superior a 162 mil reais (uma casa  simples em São Gonçalo, RJ) possui mais riqueza do que 6 bilhões e 300  milhões de pessoas. Pertence aos dez porcento mais ricos do mundo.
3- Quem tem bens em valor superior a um milhão e seiscentos mil reais (uma boa casa em Camboinhas, Niterói, RJ), possui mais riqueza do que 6 bilhões e 930 milhões de pessoas. Faz parte da fatia correspondente a  um porcento da população mundial, mais rica do que os 99% restantes.
Conclusão: num planeta extremamente injusto, até as classe média e média alta são consideradas ricas. Apenas trinta e dois milhões de  pessoas podem ser consideradas, de fato, ricas, sendo que 161 delas  controlam cerca de 140 corporações que, por sua vez, dominam  praticamente todo o sistema econômico e político do mundo. Esse é o  sistema que defendemos com unhas e dentes?

 

 

A geopolítica da política externa bolivariana

Ana Maria Schenegoski, Edu Silveira de Albuquerque

Resumo

O artigo realiza uma análise geopolítica do movimento antissistêmico bolivariano, destacando especialmente a formação da ALBA enquanto sistema de alianças regionais a partir da projeção de poder da Venezuela. Assim, o referencial teórico da Análise do Sistema-Mundo, de Immanuel Wallerstein, é recontextualizado para além das categorias de centro, periferia e semiperiferia, e de forma a englobar os projetos de poder nacional de atores periféricos ou semiperiféricos como a Venezuela.

Palavras-chave

Geopolítica, América do Sul, Alba, Venezuela

 

 

 

 

 Recomendação de leitura:
Geopolítica do Atlântico Sul na Era do Pré-Sal: desafios e perspectivas para o planejamento da defesa da soberania das águas jurisdicionais brasileiras
Por Lucas Kerr de Oliveira...
 

 
 
RESUMO
Este artigo analisa as implicações da descoberta e início da extração de petróleo do Pré-Sal para a percepção de ameaça por parte do Brasil, analisando em que medida este processo tem resultado em mudanças na estratégia brasileira de segurança e defesa. Dentre as consequências analisadas, destacam-se as variáveis relacionadas a diferentes padrões de mudanças de percepção de ameaça por parte do Brasil e que estão influenciando processos de mudanças de dois níveis: (I) respostas de modernização da Estratégia de Segurança e Defesa do Brasil, relacionada a mudanças no planejamento do conjunto dos processos de modernização das Forças Armadas; (II) respostas no nível Regional, ou seja, no contexto da América do Sul e áreas adjacentes do Atlântico Sul, que apresentam implicações como a exigência de uma crescente coordenação da Política Externa brasileira com a Política de Segurança e Defesa, visando a ampliação da cooperação e a estabilidade regional na América do Sul e no Atlântico Sul.
Para avaliar o tipo de mudanças identificadas buscou-se comparar a atual estratégia de segurança e defesa com as estratégias adotadas pelo Brasil nas últimas décadas, utilizando-se dos documentos emitidos pelo governo do Brasil, principalmente pelo Ministério da Defesa e da análise da bibliografia especializada. Procurou-se também identificar em que medida a demanda de modernização das forças armadas para viabilizar a defesa da soberania das águas jurisdicionais que incluem o Pré-Sal, tem sido planejado de forma a produzir sinergia com a necessidade de atender aos múltiplos desafios que o Brasil enfrenta na atualidade, como a defesa da soberania do seu território, da Amazônia brasileira e, no plano regional, a capacidade do país de vir a assegurar a Integração Sul-Americana e a estabilidade no Atlântico Sul.
Link para acessar o texto da sua apresentação no 4º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Relações Internacionais, entre os dias 22 e 26 de julho de 2013, em Belo Horizonte, Minas Gerais:

 

 

 

Marcado para cair

Desavenças entre João Goulart e a cúpula das Forças Armadas e o medo de o Brasil virar comunista prepararam o terreno para o golpe. Jango selou seu destino ao recorrer às massas e aos militares de baixa patente para aprovar suas reformas de base

         31/03/2014 | 00:15 | Euclides Lucas Garcia, reportagem              

 

João Goulart, o Jango, era carta marcada pelas Forças Armadas e pela direita conservadora desde 1953, quando foi ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. Em meio a pesadas greves, deu acesso livre para os sindicatos ao gabinete ministerial e aumentou o salário mínimo em 100%. Desagradou aos empresários. E também aos militares de alta patente, pois o piso salarial do país seria muito superior ao soldo dos praças, o que poderia causar revolta nos quartéis. Diante da pressão, Jango acabou demitido por Vargas. Mas, para os conservadores, Goulart ficou com a pecha de comunista. “Era época da Guerra Fria. Socialização, reformas sociais, medidas em favor do trabalhador eram fantasmas”, explica Marion Brephol, professora de História Contemporânea da UFPR.

A demissão não impediu que fosse eleito e reeleito vice-presidente, em 1955 e 1960 – primeiro de Juscelino Kubitschek e depois de Jânio Quadros. Na época, era possível votar separadamente para os dois cargos, uma aberração para os padrões atuais. Eleitos por chapas opostas, Jânio e Jango logo romperam e deram início a um caos político, que se somou à profunda crise econômica vivida no país. Numa tentativa de autogolpe, Jânio renunciou, com a certeza de que voltaria nos braços do povo. O estratagema deu errado e a renúncia foi imediatamente aceita pelo Congresso.

          

Andre Rodrigues/ Gazeta do Povo

        

Acima  Antonio Carlos Ferreira: “Os comunas vão dar o golpe. Era o que todo mundo dizia”. No alto Ainda no poder, Jango passa em revista às tropas

Reformas de base

Veja as mudanças estruturais no país propostas por Jango. Algumas delas ainda hoje causariam forte reação contrária.

• Tributária

Pretendia aumentar a arrecadação do Estado. Também limitaria em 10% a remessa de lucros para o exterior.

• Agrária

Pretendia promover a “democratização” não só de terras inexploradas, mas também das exploradas. Também estendia aos trabalhadores rurais os principais direitos dos urbanos.

• Urbana

Defendia “a justa utilização do solo urbano”.

• Eleitoral

Estenderia o direito de voto aos analfabetos e permitiria que militares de baixa patente exercessem mandatos parlamentares. Previa ainda a legalização do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

• Educacional

Propunha a valorização do ensino público e o combate ao analfabetismo por meio do Método Paulo Freire. Também extinguia a cátedra vitalícia nas universidades.

• Bancária

Tinha o objetivo de ampliar o acesso ao crédito.

Fonte: Instituto João Goulart.

Naquele momento, agosto de 1961, Jango estava em viagem à China comunista. Como já carregava o rótulo de esquerdista, os militares se opuseram à posse dele. Durante a viagem de volta ao Brasil, Goulart tentou ganhar tempo até um acordo político ser costurado. Para isso, fez escalas em diversas cidades fora do país. Os políticos chegaram a um meio termo: Jango tomou posse, mas sob um regime parlamentarista, em que o primeiro-ministro escolhido foi Tancredo Neves.

Logo, porém, ficou claro que o parlamentarismo estava longe de ser a solução para os problemas do país. Aproveitando-se disso e do crescimento da bancada do PTB (partido de Jango) nas eleições de 1962, ele convocou um ano depois um plebiscito que devolveu o país ao presidencialismo. A partir daí, Jango passou a contar com plenos poderes. Mas a nação estava mergulhada na ressaca dos “50 anos em 5” de JK: corrupção em todos os níveis, inflação aproximando-se dos três dígitos, déficit acentuado na balança comercial e dívida externa explodindo. Confrontado com esse cenário, Jango apontou seu governo na direção da plataforma das esquerdas, por meio das reformas de base. E aí começou a selar seu destino.

Uma das primeiras medidas que tomou  foi limitar em 10% as remessas de lucros das multinacionais para o exterior. O ápice, porém, se deu em 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro, naquele que ficou conhecido como o Comício da Central do Brasil. Para um público de quase 200 mil pessoas, Jango assinou dois decretos: um nacionalizava refinarias privadas de petróleo e o outro desapropriava 20 quilômetros de terras subutilizadas ao lado de rodovias. No discurso, o presidente defendeu ainda mudanças profundas na Constituição por meio de seis reformas estruturais (veja quadro). Essas propostas, porém, encontravam forte resistência do Congresso e de expressiva parcela conservadora da sociedade.

Como resultado, Jango perdeu sustentação no Congresso. Em vez de negociar com os parlamentares, radicalizou: recorreu às massas e a organizações da esquerda que defendiam as reformas “na lei ou na marra”. Era do que os adversários necessitavam para acusá-lo de estar preparando um golpe, que supostamente ocorreria em 1.º de maio e se daria por meio do fechamento do Congresso para implantar à força as mudanças que pretendia. “Em política, as coisas não precisam ser verdadeiras. A imagem, a percepção, o medo conduzem ao que se costuma chamar de reação antecipada”, explica o cientista político Adriano Codato, da UFPR. “Foi o que ocorreu devido ao fantasma em torno do Jango e que os militares chamam de contrarrevolução preventiva.”

Jango negou a acusação de que daria um golpe por diversas vezes, mas aliados davam a entender que ele tinha essa intenção. O comunista Luiz Carlos Prestes, por exemplo, defendeu em entrevistas a reeleição de Jango, o que não era permitido pela legislação da época.

Marcha da Família

A resposta a Jango veio em 19 de março de 1964, Dia de São José, o padroeiro da família. Assustadas diante do risco de “comunização” do Brasil, 500 mil pessoas saíram às ruas do centro de São Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Lado a lado, estavam patroas, empregadas domésticas, empresários, políticos, religiosos. “Os comunas vão dar o golpe. Era o que todo mundo dizia”, conta o advogado Antonio Carlos Ferreira, à época estudante de Direito da USP. Ele e mais dezenas de pessoas trabalharam durante meses para organizar a marcha. “O povo já não aguentava mais, estava cheio. A inflação estava altíssima, a desorganização do Estado era muito grande, nada funcionava direito.” A manifestação escancarou publicamente o apoio civil de que os militares precisavam para tirar Jango do poder.

Seis dias depois, o presidente deu mais um motivo para o alto comando militar decidir-se pelo golpe: aproximou-se dos praças das Forças Armadas. Em 25 de março, Jango reuniu-se com marinheiros e fuzileiros navais no Rio para defender melhores condições de trabalho nas Forças Armadas e também as reformas de base. Propôs ainda anistia aos militares insubmissos. “Era a morte da disciplina e da hierarquia. O governo estava desagregando as Forças Armadas, obviamente se preparando para o golpe”, diz José Soares Coutinho Filho, coronel da reserva do Exército. Contrariando a orientação de aliados próximos, o presidente colocou de vez a pá de cal em cima do seu mandato em 30 de março ao comparecer a uma reunião de sargentos e suboficiais da Polícia Militar, na sede do Automóvel Clube do Rio. Novamente defendeu as reformas e disse que elas não podiam mais ser adiadas. 

A partir daí, os líderes das Forças Armadas ainda reticentes se aliaram aos demais e não tiveram mais dúvidas: Jango deveria cair. A aposta do presidente de governar para as massas, dando as costas a outros segmentos sociais e atores políticos, mostrou-se equivocada.

Fonte: Gazeta do Povo - 31/03/14

 

 

 

O escritor uruguaio Eduardo Galeano fala do destino dos países latino-americanos, faz a defesa dos ideais de esquerda e decreta: o único pecado que não deve ser cometido é o pecado contra a esperança

Por Glauco Faria e Nicolau Soares

O ano é 1996. O escritor uruguaio Eduardo Galeano estava em um encontro em Chiapas, México, com integrantes do movimento zapatista, entre os quais o próprio subcomandante Marcos. Em meio a conversas e debates, algo o perturbava. Aquele não era um dia qualquer.

No entanto, o que tirava o sossego de Galeano não eram os focos de tensão entre os rebeldes e o governo, nem algum acontecimento no cenário político internacional, mas uma partida de futebol. Tratava-se da final do torneio de futebol masculino nas Olimpíadas de Atlanta entre as seleções de Argentina e Nigéria.

Como assistir o jogo em meio à extensa programação do dia? Em um intervalo entre uma reunião e outra, o uruguaio não se conteve. Fingiu ir ao banheiro e saiu escondido para o hotel onde estava hospedado. Quando voltou, perguntaram-lhe: “Eduardo, onde estavas?”. Disfarçou e deu uma desculpa qualquer. “Nunca tive coragem de admitir que fugi para ver o jogo.”

O futebol é tema recorrente de comparações e de histórias de Galeano, que fez essa confidência à Fórum em meio à sua participação no I Festival Latino-Americano de Música Camponesa, realizado em Curitiba em novembro do ano passado. Na ocasião, o escritor falou a milhares de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o MST.

O uruguaio, que conseguiu tocar milhões de leitores com o clássico As Veias Abertas da América Latina, seduz os espectadores que acompanham suas palestras. Com um português impecável e uma serenidade inabalável, recorre a histórias e parábolas para ilustrar suas contundentes críticas ao modelo neoliberal e aos rumos da esquerda e dos países do continente latino-americano. Mas em cada trecho de sua fala faz questão de deixar uma palavra de esperança e reafirmação de valores caros aos movimentos progressistas. Durante sua estada no evento, Fórum acompanhou os passos do escritor e traz abaixo os principais trechos de sua entrevista exclusiva, assim como da palestra que realizou no evento. Apesar de ser sábado e ter jogo do Brasileiro na televisão, dessa vez, Galeano não escapou.

Ser de esquerda

É difícil fazer um catálogo dos ideais de esquerda. Eu diria que são os mais ligados às idéias da liberdade, da comunhão com a natureza, da preservação da vida, não só humana, mas da vida do planeta, que é nossa casa. E é a certeza de que fazemos parte de um arco-íris de diversas cores e que o racismo está nos deixando cegos para essa maravilha que é a diversidade humana e da vida no mundo. Porque o melhor do mundo é a quantidade de mundos que ele contém. Essas seriam algumas coisas básicas.

Ocorre hoje a ressurreição dos laços solidários, não digo mortos, mas muito feridos, quebrados, a partir da imposição de uma escala de valores fundada na salvação pessoal, na idéia de que o outro é um competidor e um inimigo, não um companheiro. Que é uma ameaça e não uma promessa. Acredito, como um homem de esquerda, que alguém sempre  tem alguma coisa para dizer que valha a pena escutar. Os trinta e poucos anos transcorridos desde que escrevi As Veias Abertas da América Latina indicam que alguns desses valores já não têm a força que antes tinham. Por exemplo, nos anos 70, ninguém discutia que a pobreza era filha da injustiça. Era a esquerda quem denunciava, mas ninguém discutia. O centro aprovava e a direita não discutia, calava a boca. Agora, é uma minoria que continua acreditando nisso. Para a maioria dos opinion makers, os fabricantes de opinião do mundo, a pobreza é o castigo que a ineficiência merece. Isso é uma mudança de valores radical.

Boas notícias

É muito difícil perceber que projetos e idéias são interessantes, mas eles existem. Há casos como o plebiscito da água, que me parece uma coisa digna de contágio, merece ser imitada por outros países. Mas não tenho muita esperança, porque o Uruguai já fez um outro plebiscito em 1992 sobre a privatização das empresas públicas em que 72% da população votaram contra e ninguém imitou isso, que é um exercício de democracia elementar. Quando você está tomando uma medida que vai afetar o destino de várias gerações, como é a privatização dos recursos essenciais de um país, é necessário consultar à população.

Mas além dessas coisas, que são muito concretas, palpáveis, é difícil fazer uma lista das boas notícias. Mas elas existem o tempo todo, às vezes em uma escala local que não tem a menor repercussão, mas que é verdadeira.

Efeito Lewinsky

O governador Requião, em um almoço, me dizia que nenhum jornal brasileiro publicou nenhuma linha sobre o plebiscito da água que ocorreu no Uruguai. E foi um fato muito importante, não por ter acontecido no meu país, não vou fazer patriotadas bobas, mas porque foi o  primeiro país a fazer uma consulta pública sobre o uso de um recurso natural perecível como é a água. Foram 65% dos uruguaios a favor de uma emenda constitucional que garante que a água continuará sendo  propriedade pública e não um negócio privado. Isso não apareceu nos jornais, não era notícia.

Há um controle mundial nos meios de comunicação que já é hora de ser quebrado. Uso como exemplo o ano de  1998, quando o mundo ficou condenado a ler, escutar e assistir, dia  após dia, às notícias do romance entre o presidente do planeta e aquela gordinha voraz, Monica Lewinsky. Você tomava café da manhã com ela, almoçava com ela, jantava com ela… Um ano inteiro. Um dia,  estava na Europa e abri um jornal que era pura Monica Lewinsky. E aí, perdida, havia uma notícia, na última coluna da página sete, dizendo que as três organizações ecológicas mais importantes do mundo haviam se juntado em Londres para divulgar um relatório seriíssimo que revelava que, em meio século, o mundo tinha perdido um terço de seus recursos naturais. Isso não teve a menor importância. Um terço dos  recursos é fácil de dizer, mas se você pensa na dimensão desse crime gigantesco… O mundo tinha perdido em cinqüenta anos um terço de seus recursos e não tinha espaço para isso no jornal, porque estavam  ocupados com a outra história.

O processo do Fórum

Percebo uma multiplicação da energia criativa na sociedade civil da América Latina a partir do primeiro FSM, um maior dinamismo. Existe uma contradição entre o tempo da história e o tempo da vida dos homens. Cada pessoa quer ver os resultados das coisas, o que é compreensível,  um desejo humano. Mas a história é uma senhora que caminha devagar. É preciso ter paciência. O resultado dessa articulação de vozes não aparece em um ou nem mesmo em dez anos. Estão despertando  energias que pareciam estar dormindo ou até mortas.

Essa articulação  é lenta, mas imprescindível para o futuro dos movimentos sociais. Na  solidão, estamos mortos. A esquerda está tentando um caminho novo,  novas experiências políticas. Essas novidades aparecem em todos os  setores, não só nas eleições. É interessante ver que (Hugo) Chávez, demonizadíssimo  por toda a grande mídia, ganha nove eleições limpas. Estamos falando de um tirano muito especial que ganhou nove eleições – todas mais transparentes que as dos EUA. No Uruguai, a esquerda ganhou, mostrando que o trabalho rende frutos, não é só água jogada no  mar. Foi um trabalho iniciado em 1971, casa por casa.

O FSM e os pequenos

Com o passar do tempo, valorizo cada vez mais as pequenas escalas,  as pequenas dimensões e desconfio cada vez mais da espetacularização das grandes notícias. Eu digo isso para revelar a grandeza  escondida nas coisas pequenas e denunciar a mesquinharia das  coisas grandes. O Fórum Social Mundial tem essa característica do espetáculo, mas é diferente, porque é nascido da insólita e jamais vista tentativa de juntar todas essas pequenas forças desconhecidas  que existiam espalhadas. Ele tem sido um grande passo adiante na direção correta de juntar os dispersos, re-vincular os desvinculados,  de salvar-nos da solidão. Nesse sentido, acho que o mundo tem avançado  muito, de uma maneira silenciosa, não estrepitosa, mas certa. E que não corresponde exigir resultados imediatos, pois são processos muito longos, complexos, que caminham devagar e crescem desde o  pé, como pedia o cantor uruguaio e meu amigo muito querido Alfredo Zitarosa, porque senão as coisas não duram.

O Fórum abriu um grande espaço de encontro e essa é sua importância, ter conseguido  que os dedos ganhassem consciência de que fora da mão não servem para nada. A ida para a Índia parece ter sido uma experiência positiva, pois abriu toda uma metade do mundo que estava meio em sombra, não aparecia muito, e permitiu a expressão de forças que estavam latentes. Mas não sei o que acontecerá. Em geral, não sou  um bom profeta. Sobretudo no que mais me interessa na vida, que é o futebol (risos).

500 Anos de Solidão

A América Latina é uma região do planeta dentro da qual existem energias de mudança muito lindas e também energias do sistema colonial que vêm se perpetuando já há mais de cinco séculos e que são  muito poderosas. Eles têm um poder econômico e cultural imenso e boa parte do poder político. São essas as forças que estão nos treinando desde sempre para a certeza de nossa impotência. Para a certeza de  que a realidade é intocável, de que o que é, é porque foi e continuará sendo. De que amanhã é outro nome de hoje. Isso é um fatalismo herdado e tem muito tempo de vida: cinco séculos. Não é fácil lutar contra isso. Vamos inventar a vida, vamos imaginar o futuro. Vamos cometer a loucura de acreditar que essa terra pode ser outra. De que essa região nossa não está condenada pelos deuses nem pelos diabos à pena perpétua de solidão e desgraça. Mas isso não é fácil.

Elogio ou acusação

Como sempre, há essa tensão criativa entre as forças da inércia dos sistemas tradicionais e as forças novas que surgem. O problema é que às vezes as forças novas adotam os valores das que combatem sem perceber. Por exemplo, toda uma escala de valores que acredita no sucesso como uma fonte de valor. Então, essas forças de mudança começam uma corrida louca para parecer com seu inimigo, para fazer a coisa de tal maneira que seu inimigo lhe aplauda. Às vezes me dizem: “você é muito bom”. Mas eu procuro ver quem é que está falando, porque, dependendo, pode ser uma acusação gravíssima.

O pecado contra a esperança

A vitória da esquerda nas eleições uruguaias foi, para nós, um acontecimento incrível. Parece milagre. A esquerda obteve a metade mais um dos votos contra um monopólio compartilhado de dois partidos  tradicionais que exerciam o poder desde a fundação dos tempos, desde Adão e Eva ou antes. Parece milagre, mas não é. É o resultado de um trabalho paciente, feito dia após dia, porta por porta, consciência após consciência. A vitória da Frente Ampla foi crescendo desde o pé. E foi celebrada numa noite inesquecível. Aquele domingo foi absolutamente inesquecível. Eu nunca tinha visto, sentido, vivido tanta alegria no meu país. Foi uma ressurreição da alegria, que parecia morta, mas estava apenas dormindo. Lá pelas quatro da manhã, o povo nas ruas, aquela explosão incessante das melhores coisas, um amigo me comentou: “Quero que essa noite não acabe nunca”.

E essa frase, que é lindíssima, não se refere só à noite da celebração, mas também a tudo que aquela noite estava encarnando, simbolizando. O que ele queria dizer verdadeiramente, mesmo sem saber, era: “Eu quero que essa alegria, essa esperança, não seja jamais traída”. Porque tinha razão o meu mestre Carlo Quijano quando, há muitos anos, comecei a fazer jornalismo ainda quase criança com ele, no semanário Marte. Ele me dizia: “Qualquer um que lhe olhe nos olhos já vê claramente sua vocação de pecado. Você é um pecador de nascença e eu não tenho nada contra. Peque sim. Mas tem um pecado que não tem redenção, que não merece perdão. É o pecado contra a esperança”. Essa é a imensa responsabilidade da esquerda em meu país. Não trair nunca essa boa energia de vida que foi vitoriosa nas eleições.

Uruguai hipotecado

O governo da Frente Ampla, que está nascendo agora, é o resultado do desenvolvimento de um movimento popular que jamais falou que iria ganhar o governo para fazer o socialismo. Seria irreal prometer isso. O que se prometeu foram coisas mais moderadas, modestas, que são as mais ou menos realizáveis, que eu espero que sejam realizáveis em um país quebrado, desesperançado como é o Uruguai. A primeira  prioridade é lutar contra a pobreza. A segunda, resgatar os filhos perdidos de um país que perdeu a população jovem, condenada ao exílio econômico, expulsa pelo sistema de poder. E a terceira, vinculada com as outras duas, é buscar um desenvolvimento econômico que não contradiga a soberania nacional sobre os recursos básicos e que permita a criação de fontes de emprego. O problema do Uruguai é que o país foi convertido pela estrutura dominante em um banco. O banco quebrou e assim estamos. A esquerda recebe um país hipotecado, com  compromissos de dívida externa terríveis, pesadíssimos. Esse é o drama latino-americano em geral, é uma soberania condicionada. Você é independente até um certo ponto. Porque depois, quem decide são os credores. É o resultado de viver em um estado de dívida perpétua, pagando para se endividar mais e mais.

Lula

Não pretendo explicar para o brasileiro como são as coisas aqui. Não sou de vender gelo a esquimós. Estou aqui aprendendo, perguntando. No caso do governo Lula, há uma distância entre as expectativas e a realidade. É um problema da esquerda no mundo, a perda de identidade. Ela passa a não se diferenciar do que combate. Em nome do realismo, se sacrificam alguns princípios fundamentais do movimento  socialista, ou como queira chamá-lo, já que teve muitos nomes. Lembro de ver, quando era jovem, um filme dos irmãos Marx. Groucho estava conduzindo um trem e não havia mais lenha. Então, ele começou a destruir os vagões com um machado, para alimentar a caldeira. Ele conseguiu chegar até a estação, mas apenas com a locomotiva. Chegou um trem sem trem. Esse é o perigo que corre a esquerda. Não é inevitável, mas é um perigo.

Projeção internacional do Brasil

O que eu resgataria do governo de Lula é a projeção internacional, essa vontade de fazer uma frente unida dos países que vivem situações semelhantes, que têm problemas semelhantes e um destino comum a conquistar. Que têm essa urgência imediata da restauração da dignidade ferida na negociação financeira, comercial e cultural. Sem essa união, não tem possibilidade. Nenhum país tem. O Brasil pode achar que tem, pela sua dimensão imensa. Mas a situação é a mesma. Por maior que o Brasil seja, não tem a possibilidade de se salvar na solidão. Já está na hora do sul do mundo recuperar aquela energia perdida dos velhos tempos, há 40, 50 anos, quando se faziam aquelas conferências do Terceiro Mundo, que era um mundo independente dos dois blocos, capitalista e comunista. Era a emergência de uma terceira possibilidade e chegou a ter muita força, mas depois se perdeu na névoa do tempo. E também os organismos que existiam para defender o preço dos produtos básicos, que morreram todos, exceto a OPEP. Já é hora de acabar com a impunidade dos poderosos nos grandes mercados, financeiros e comerciais, e no panorama cultural mundial  também. Eles são os donos de nossos sonhos, de nossas opiniões, das informações que recebemos ou não, de acordo com a vontade de quem manda. Já é hora de recuperar isso tudo.

União é a chave

Para poder fazer frente a essa negação da esperança, é preciso concretizar uma política conjunta do Uruguai com o Brasil e a Argentina. Aí está a chave de tudo. Cito esses dois porque, no caso do Uruguai, são os vizinhos mais diretos, mas deveria envolver toda a área do cone sul. Fazer uma política conjunta do Mercosul ampliado, como for possível. A idéia de que você pode se salvar sozinho não tem mais nenhuma relação com a realidade dos dias de hoje. Sozinhos, estamos fritos. A solidão nos condena ao fracasso.

Os EUA e o medo

A propósito das outras eleições, que aconteceram dois dias depois das nossas, em um outro país, um pouco maior que o Uruguai, e que ocupa um pouco mais de espaço na mídia universal, elas consagraram o presidente do planeta, senhor George W. Bush. Na eleição do Uruguai, que não teve nenhuma repercussão neste mundo que confunde a grandeza com o tamanho grande dos países e das pessoas, foi uma vitória contra o medo. Na campanha política, a direita tentou aterrorizar a população dizendo que a Frente Ampla era uma conjunção de forças dirigida por tupamaros, seqüestradores, estupradores, ladrões e assassinos. Eu vi pela televisão o discurso final do vice-presidente do partido Colorado, que é o partido do governo atual. Ele lançou uma terrível advertência: se a esquerda ganhar, todos os uruguaios seriam obrigados a se vestir iguaizinhos, como os chineses na época do Mao.

Sobre o plebiscito das águas, também uma campanha  de terror, anunciando o pior. Águas envenenadas, sujeira, cheiro fétido, o fim dos esgotos, um panorama terrível, apocalíptico. E o pessoal não deu bola, a população votou contra o medo. Acho que nas eleições dos EUA o medo ganhou. Uns dias antes das eleições, as pesquisas apontavam uma preocupante paridade entre Bush e Kerry. E aí, apareceu, não sei como, deve ser a divina providência, esse personagem que parece tirado  do carnaval uruguaio, com aquela barba longa, que responde pelo nome de Bin Laden. Ele aparece para assustar o mundo anunciando que vai comer todos os nenês crus, que vai fazer todos os desastres. Dois apocalipses, três apocalipses, quinze mil torres de Nova York. Magnificamente, Bush subiu quatro pontos em um dia só nas pesquisas de opinião graças à ajuda proporcionada por esse que me parece um chefe de boy-scout (escoteiro). O lema do boy-scout é always ready, ou sempre alerta. Ele está sempre pronto. Acode cada vez que o sistema do medo necessita do grande assustador, esse alto funcionário da ditadura universal do medo.

O medo é importantíssimo não só porque pode eleger um presidente, como aconteceu aí com essa extorsão contínua, essa histeria do terrorismo que avança, das forças do mal, o Diabo que está aí perto, cheirando a enxofre, com chifre e rabo. Mas também para o poder militar. Que seria desta estrutura militar que hoje manda no mundo, dos 2,5 bilhões de dólares que são a cada dia destinados à indústria da morte, às despesas militares, sem o medo? Se não houvesse pessoas ou máquinas, como fabricar os demônios para justificar a existência da estrutura militar? E a mesma coisa em relação à mídia. O medo vende muito bem.

Tecelão

Meu último livro se chama Bocas do Tempo e são textos curtos, num estilo levemente parecido com o do Livro dos Abraços. São 333 histórias, mas isso não foi deliberado, foi o número que encontrei quando fiz o índice. É um número bom, dá sorte. Mas uma quantidade imensa de histórias ficou fora, porque quem escreve, tece. A palavra texto vem do latim textum, que significa tecido. Ou seja, quem escreve está tecendo, é um trabalho têxtil. Você trabalha com fios e cores, que são as palavras, as frases, os relatos. Eles vão se encontrando e há alguns fios que são lindíssimos, mas que não coincidem, não combinam. Então, com dor na alma, ficam de fora.

Foram oito anos de trabalho para esse livro, umas histórias simples, mas que de simples não tem nada. Quanto maior é a sensação que o leitor percebe de transparência, mais complicado é o trabalho que essa aparente simplicidade contém. Para mim, escrever é uma força enorme. E me dá uma alegria imensa também. No fim, quando consigo sentir que essas palavras são bastante parecidas com o desejo de dizer, fico com a certeza de que a condição para não ser mudo é não ser surdo. Ou seja, só é capaz de dizer quem é capaz de escutar. Sou um caçador de vozes e histórias. É a realidade que me conta as coisas que acho que vale a pena que sejam contagiadas.

Abraçado aos vencidos

Não sou um homem que tem ídolos, não idolatro ninguém. O mais próximo que tenho de um ídolo é um jogador de futebol, um cara que me acompanha quando escrevo, já que tenho um pôster dele no meu  escritório. Era um inimigo, pois jogou no Peñarol e sou torcedor do Nacional. Fui conquistado por ele, pelo que fazia e por sua personalidade.

Seu nome era Obdulio Varela e foi o herói de um episódio que os brasileiros chamam, com certo exagero, de “nosso Hiroshima”, a final da Copa de 50, quando o Uruguai ganhou, contra todas as possibilidades, do Brasil. Após a partida, os jogadores foram festejar essa impossibilidade. Mas ele fugiu do hotel e foi beber em um boteco do Rio.

Ele me disse que o que havia nas arquibancadas era uma besta, um monstro de 200 mil cabeças. “Eu os odiava”, contou. Depois, tomou uma, duas, três cervejas e via as pessoas, uma a uma, tristes, chorando. E pensou: “Como eu fiz isso com essa gente tão boa?”. E todos atribuíam a vitória a ele, “foi o Obdulio”, diziam. Por isso o admiro, ele não se acusou, não comemorou e passou a noite inteira abraçado aos vencidos.

Fonte: http://revistaforum.com.br/blog/2011/10/o-cacador-de-vozes/

 

 

Quem manda no mundo?


Muito antes de analisarmos as instituições políticas – governos e partidos políticos –, que na democracia são os instrumentos de exercício do poder, é preciso reconhecer que esses governos e partidos são sustentados por recursos, valores e uma cultura profundamente arraigada na sociedade....
Quando os imigrantes são criminalizados, a pena de morte é defendida, as discriminações de todo tipo – raciais, religiosas, de gênero, por exemplo – reafirmam desigualdades, a sociedade mostra sua cultura autoritária e excludente.
Mas seria injusto atribuir a toda a sociedade esse mesmo comportamento, como se ela fosse homogênea, feita de iguais. Na realidade, é sempre uma sociedade em disputa, na qual há oprimidos e opressores. E esses opressores se valem de numerosos instrumentos para difundir seus valores e ganhar a adesão das maiorias. Isso se chama ideologia: a narrativa dos opressores que justifica e legitima a opressão.
A escola, as igrejas, a televisão, o cinema e os jornais atuam sobre a opinião pública reconstruindo a todo momento a narrativa dos poderosos, criando novas versões para reafirmar seus valores e interpretar o que vivemos.
Quando os poderosos do momento são os bancos, os donos do capital, esse discurso assume os valores do capitalismo financeiro e passa a exaltar a disputa, o egoísmo, o individualismo, o desejo de acumular sem limites, a destruição do concorrente, a vitória sobre os demais. Uma proposta de vida que é um estado de guerra permanente.
Nesse caldo de cultura, se podemos chamar assim, é que se exercem os pequenos e os grandes poderes; as relações assimétricas que ocorrem na família, no trabalho, nos espaços públicos, recriando sociedades autoritárias, hierárquicas, centralistas, verticais.
E nessa condição de convivência humana, o instrumento de defesa das maiorias é a democracia, por meio de instrumentos públicos de regulação e controle dos interesses privados. Mas mesmo a democracia é desafiada e, na maior parte dos casos, submetida aos interesses dos poderosos. Reconquistar a liberdade, a autonomia e a capacidade de decidir sobre a vida cotidiana e os destinos da coletividade é enfrentar esses pequenos e grandes poderes. Isso significa disputar no dia a dia os sentidos da democracia.
Editorial de Silvio Caccia Bava, Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil, para o Dossiê 10: Quem Manda no Mundo.
Para saber mais acesse: https://www.diplomatique.org.br/edicoes_especiais_det.php?id=10
Fonte do mapa:http://elordenmundial.com/relaciones-internacionales/cambio-orden-economico/
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O jogo de 'morde e assopra' da Rússia com a Ucrânia

Protesto na Ucrânia (Reuters)

Presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, recebeu propostas de incentivos da Rússia

Para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, relações internacionais significam competição, que se intensifica a cada dia. A relação com a Ucrânia não deixaria de ser diferente.

Putin reiterou esses principais no discurso do Estado da Nação, na semana passada. Os principais competidores são “grandes unidades geopolíticas”: os Estados Unidos, a China e a Europa, ainda que os europeus não tenham uma estratégica unificada.


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Segundo Putin, a Rússia não é apenas uma unidade estratégica. Também teria uma civilização à parte, que compartilha com outros países, como a Ucrânia e Belarus. Essa civilização é cristã e europeia, mas não é uma simples extensão da Europa Ocidental ou da União Europeia. Pelo contrário, quer ser tratada como entidade em pé de igualdade.

Velhos aliados soviéticos

A crise mundial fez Putin relançar o já atrasado projeto de integração econômica da Eurásia.

Em 2009, Moscou começou a trabalhar seriamente com uma união aduaneira com Belarus e o Cazaquistão. Em 2012, a união se aprofundou, colocando os três países em um espaço econômico único. O objetivo agora é o estabelecimento da União Econômica Eurasiana, em 2015.

Outros duas ex-repúblicas soviéticas, a Armênia e o Quirguistão, já se candidataram a ser membros da união. Mas é a Ucrânia, com 46 milhões de habitantes e a segunda economia da região (atrás dos russos), o país que realmente faria diferença no projeto de Putin.

Rússia faz aceno bilionário à Ucrânia

O presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych, esteve nesta terça-feira na Rússia, onde encontrou o colega Vladimir Putin. 
Os dois assinaram vários acordos. A Rússia ofereceu um desconto de quase um terço no preço do gás e se disse disposta a comprar bilhões de dólares em titulos ucranianos. 
Os dois presidentes negaram ter discutido a união aduaneira entre os dois países, que substituiria a integração com a Europa. 
Em Kiev, a oposição pediu mais detalhes sobre o encontro e querem saber exatamente o que Yanukovych ofereceu em troca da generosidade russa.

Diferente do senso comum, Putin não impôs sanções. Ele oferece grandes incentivos ao presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovych: gás a preço barato, cooperação em grandes projetos industriais e crédito barato. Ele também apelou à unidade dos povos eslavos, a maioria cristãos-ortodoxos, e ao papel proeminente dos ucranianos no império russo e na União Soviética.

Basicamente, Putin convidou todo mundo a entrar no mesmo barco com a Rússia novamente.

A questão é que toda a elite da Ucrânia tem um projeto puramente nacional, que vê a Ucrânia independente da Rússia, sobretudo.

Mesmo o presidente Yanukovych e o primeiro-ministro Mykola Azarov, além dos magnatas do leste da Ucrânia, região onde se fala o russo, não querem ouvir falar de integração. Eles não se importam com acordos comerciais, mas uma integração os deixaria sem poder.

O Partido das Regiões, do governo, prefere o status quo. Mas a maioria da população, e da oposição, quer ir em direção à União Europeia.

Kiev então anunciou sua intenção de assinar um acordo de associação e de livre comércio com a União Europeia, ainda que mantendo seus laços comerciais com a Rússia.

Músculo russo

Percebendo que Kiev queria tomar as próprias decisões, Putin deixou claro que os ucranianos teriam de fazer uma escolha. Ele também fez questão de mostrar à Ucrânia os custos de se voltar à Europa.

A insperação sanitária russa achou problema com os doces da Ucrânia e a alfândega passou a segurar por mais tempo as mercadorias ucranianas na fronteira. A gigante russa Gazprom fez questão de lembrar da dívida ucraniana.

A estrategia russa parece ter surtido efeito, com a decisão de Yanukovych de suspender as negociações com a União Europeia. Mas os protestos em Kiev acabaram pondo as coisas em outra direção.

Moscou também está genuinamente irritada com a União Europeia, com o que considera com uma interferência na Ucrânia.

Se a Ucrânia pender para a Rússia, Moscou terá de gastar bilhões para ajudar as contas de Kiev e para dar competitividade à sua indústria ineficiente.

Ainda que a Ucrânia consiga uma posição privilegiada na União Eurasiana, os protestos mostram que os ucranianos vão continuar tentando escapar da órbita russa.

Por outro lado, se a União Europeia ajudar a Ucrânia a ser tornar mais moderna, ainda que a um algo custo para os dois lados, a Rússia seria indiretamente beneficiária.

Nesse caso, a Ucrânia seria um vizinho previsível e com melhor ambiente para negócios - sem pagar um único rublo. Se essa for a opção, será uma perda no curto prazo para Putin e um ganho de longo prazo para a Rússia.

*Dmitri Trenin é diretor do Carnegie Moscow Centre, em Washington, e analista das relações internacionais da Rússia

 

 

 

Privatização de tudo' gerou protestos, que vão continuar

 20.11.2013

 Folha de S.Paulo | Poder

Eleonora de Lucena entrevista David Harvey

  


 

GEÓGRAFO DIZ QUE A CRISE MUNDIAL AMPLIOU A CONCENTRAÇÃO DA RIQUEZA E CRITICA GASTOS DO BRASIL COM COPA E OLIMPÍADA

 

O projeto neoliberal é privatizar e transformar tudo em mercadoria. No seu fracasso em realizar promessas de eficiência estão as raízes dos protestos que eclodem pelo mundo e no Brasil. Partidos convencionais, reféns do capital internacional, não conseguem canalizar a raiva das ruas. Não há ideias novas, e as manifestações vão continuar. 

A análise é do geógrafo marxista britânico David Harvey, 78. Professor da Universidade da Cidade de Nova York, ele ataca os "oligarcas globais" e afirma que os bilionários foram os que mais ganharam com a crise. 

Crítico de megaeventos como Copa e Olimpíada, ele diz que os governos são muito influenciados pelo capital financeiro: "Esses eventos são sobre a acumulação de capital através de desenvolvimento de infraestrutura. Os pobres tendem a sofrer, e os ricos tendem a ficar mais ricos". 

A partir de sexta Harvey irá a debates no Brasil sobre o lançamento de seu livro Os limites do capital e da coletânea Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.  

Qual sua avaliação sobre a situação mundial?
É muito mutante e volátil. Está tão perigosa quanto sempre foi. O que me surpreende é que não há novas ideias. As receitas propostas aprofundam o modelo neoliberal ou tentam desenvolver alguma forma de keynesianismo. Ambas opções me parecem muito frágeis. 

O sr. disse à Folha em 2012 que a crise deveria aprofundar a concentração de capital e as desigualdades. Isso ocorreu?
Sim. Todos os dados mostram que o número de bilionários cresceu no mundo. Foi o grupo que melhor se saiu melhor na crise, enquanto todos os outros ou permaneceram estagnados ou perderam. O crescimento principal está sendo canalizado para o 1% mais rico da população mundial. É preciso haver uma redistribuição de renda globalmente e entre classes. O clube dos bilionários é que é o problema. Oligarcas globais controlam potencialmente ¾ da economia global. Meu ponto é: vamos para crescimento zero, sem canalizar o crescimento para eles e, ao mesmo tempo, devemos fazer uma redistribuição. 

Nesse cenário haveria uma guerra, não?
Olhando para o que está acontecendo nas ruas se pode pensar que esse tipo de coisa não está tão longe assim. 

Qual sua visão dos protestos pelo mundo? O sr. defendeu a criação de um "partido da indignação" para lutar contra o "partido de Wall Street". Como essa ideia evoluiu?
Os movimentos não estão indo muito bem. O poder político se moveu rapidamente para tentar reprimir os protestos. Há também muitas divisões entre os movimentos. Sobre o futuro, é muito difícil prever. A situação é muito volátil para os movimentos. 

E sobre os protestos no Brasil?
Existe uma desilusão generalizada do processo político. As pessoas estão começando a discutir como modificar os piores aspectos da exploração capitalista. Há também uma alienação, que leva a alguma passividade, que é interrompida ocasionalmente por explosões de raiva. O nível de frustração por todo o mundo está muito alto agora. Não surpreende que essas manifestações ocorram. O problema é canalizar essa raiva para movimentos políticos que tenham um projeto. Prevejo mais explosões de raiva nos próximos anos – no Egito, na Suécia, no Brasil etc. 

Há conexão entre esses movimentos?
Sim, cada um tem suas demandas específicas, mas há problemas de base provocados pela natureza autocrática do neoliberalismo, que virou um padrão para o comportamento político. Ele não é satisfatório para a massa da população e fracassou em entregar o que prometeu. Há uma crise na governança democrática e uma raiva contra as formas tomadas pelo capitalismo. No norte da África os protestos foram parcialmente sobre a alta nos preços da comida. Isso diz respeito ao poder do agronegócio e à especulação com as commodities, causas da alta dos preços. 

No Brasil os protestos estouraram por causa da alta nas tarifas de ônibus. Como especialista em questões urbanas, como o sr. avalia o problema?
O projeto neoliberal é privatizar e transformar tudo em mercadoria. Tudo vira objeto das forças do mercado. Dizem que essa é a forma mais eficiente de prover bens e serviços para uma população. Mas, na verdade, é uma maneira muito eficiente de um grupo da população reunir uma grande soma de riqueza às custas de outro grupo da população – sem entregar, de fato, bens e serviços (transporte, comida, casas etc.). Essa é uma das razões do descontentamento da população. Por isso, explodem manifestações de raiva em diferentes lugares e em diferentes direções políticas. Há uma situação de fundo que dá uma visão comum às batalhas, embora cada uma delas seja específica e diferente. No Brasil foi o custo do transporte. Em outros lugares é preço da comida, da habitação etc. 

Em São Paulo há também a discussão sobre o aumento do imposto sobre propriedade urbana. Isso também evidencia uma luta social?
Vamos chamar de luta de classes. Ela está mais evidente, mas muitas pessoas não gostam de falar sobre isso. 

Partidos tradicionais foram pegos de surpresa no Brasil. Mas os movimentos não têm organização própria. Como isso pode se transformar em forças políticas organizadas?
Se eu tivesse essa resposta, não estaria falando com você agora. Estaria lá fora fazendo. A situação agora reflete a alienação das pessoas em relação a praticamente todos os partidos políticos e a sua desilusão com o processo político. Nos EUA, o Congresso tem uma taxa de aprovação de 10%. Nessa circunstância, as pessoas não vão canalizar o seu descontentamento para o processo político, pois não enxergam esperança nisso. Por isso, há essa raiva. E assim as coisas vão continuar. 

O sr. concorda com a visão de que partidos de todos os matizes caminharam para a direita e que a esquerda se diluiu em ONGs e estruturas voláteis?
Há internacionalmente uma ortodoxia econômica, que é reforçada pelos movimentos do capital internacional. Os partidos políticos convencionais se tornaram reféns desse poder. 

Isso acontece com o PT?
Isso é para o julgamento de seus leitores. Noto que há uma desilusão sobre o PT entre seus próprios integrantes. 

O sr. está escrevendo um livro sobre as contradições do capitalismo. Qual é a principal?
Estão mais restritas as condições que o capital tem para crescer. É muito difícil achar novos lugares para ir e novas atividades produtivas que possam absorver a enorme quantidade de capital que está buscando atividades lucrativas. Em consequência muito capital vai para atividades especulativas, patrimônio, compra de terras, commodities. Criam-se bolhas. 

O sr. escreveu que é cada vez mais difícil encontrar o inimigo. Quem é o inimigo?
O inimigo é um processo, não uma pessoa. É um processo de circulação de capital que entra e sai de países. Quando decide entrar, há um "boom"; quando decide sair, há uma depressão. Por isso é necessário controlar esse processo de circulação. O Brasil tem possibilidades limitadas, porque o capital pode simplesmente desaparecer. 

No início o Brasil parecia estar indo bem na crise. Agora estamos travados. O que deu errado?
Houve mudanças modestas no Brasil no sentido de redistribuir renda, como o Bolsa Família. Mas é necessário fazer muito mais. Muito dos gastos em enormes projetos de infraestrutura ligados à Copa do Mundo e à Olimpíada são uma perda de dinheiro e de recursos. As pessoas se perguntam por que o país está fazendo todos esses investimentos para a Fifa ter um grande lucro. Para o resto do mundo é surpreendente ver brasileiros se revoltando contra novos estádios de futebol. 

Copa e Olimpíada não fazem bem para o país?
A Grécia está em dificuldades em parte por causa do que foi feito em razão da Olimpíada de Atenas. Muitas cidades olímpicas nos EUA entraram em dificuldades financeiras. 

Como o sr. explica o poder da Fifa e do COI?
É como qualquer poder monopolista: extrai o máximo do que se tem a oferecer. Os governos são muito influenciados pelo capital financeiro. Esses eventos são sobre a acumulação de capital através de desenvolvimento de infraestrutura, de urbanização. Envolvem também despossuir pessoas, removendo-as de suas residências para abrir espaço aos megaprojetos. Os pobres tendem a sofrer, e os ricos tendem a ficar mais ricos. 

Como o sr. analisa a situação política na America Latina?
Politicamente houve, na superfície, um tipo de política antineoliberal. Mas não houve nenhum verdadeiro grande desafio para o grande capital. Há discursos anti-FMI. Mas, de outro lado, o Brasil está ofertando a exploração de seu petróleo para empresas estrangeiras, por exemplo. Não é profunda a tentativa de ir realmente contra as fundações do capitalismo neoliberal. É uma política antiliberal só na superfície, na retórica. Mas há alguns elementos, como o Bolsa Família, que não fazem parte da lógica neoliberal. Mesmo a Venezuela não vai muito longe em realmente desafiar os interesses do capital. 

Os EUA não perderam posições na região?
Os EUA estão mais fracos na América Latina, em parte porque o crescimento da região foi mais orientado para a o comércio com a China, que ampliou o seu papel imensamente. De muitas formas, a economia na América Latina é muito mais sensível ao que ocorre na economia chinesa do que na norte-americana. 

 

 

   Ao assistir o documentário os brasileiros precisam acordar para a possibilidade de sermos vítimas de uma revolução "delivery", planejada por consultores estrangeiros interessados em desestabilizar o país.


 

 

Ilhas Malvinas abraçam Reino Unido e dizem não à Argentina

Movimentação na capital do arquipélago lembra os 30 anos do conflito entre ingleses e argentinos pelo domínio do território

   

As casas em Stanley, a capital do arquipélago das Malvinas, estão decoradas com as bandeiras das Falklands e do Reino Unido; os car­­ros, pintados com a Union Jack (bandeira britânica). A cidade nunca esteve tão movimentada.

Os dois únicos hotéis — Mal­­vina House e Waterfront, onde funcionam também os dois únicos restaurantes — andam com a lotação máxima. Com gente que busca um lugar na aguardada in­­dústria petrolífera que surge nas ilhas, com veteranos de Reino Uni­­do e Argentina que lutaram a guerra pelo domínio do arquipélago há 30 anos e com jornalistas, muitos jornalistas.

 

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Fotos: Marcos Brindicci/Reuters

Argentina fere estatuto das Nações Unidas

O governador Nigel Haywood diz que o Reino Unido defende o direito dos habitantes das Ilhas Malvinas à autodeterminação: escolher se querem continuar sen­­do um território britânico além-mar (elas não são chamadas de colônia) ou se preferem ser independentes.

Segundo ele, potências regionais como o Brasil “precisam perceber” que, ao reivindicar a soberania sobre as Malvinas, é a presidente argentina Cristina Kirchner quem, na verdade, fere o estatuto de descolonização das Nações Unidas, “querendo estabelecer aqui uma colônia argentina contra a vontade do povo”.

Há um ressentimento com o fato de o Brasil apoiar as demandas argentinas sem conhecer a realidade do arquipélago.

Descolonização

“Acho que há dois motivos. O primeiro é o fato de a América La­­tina ter passado quase que si­­multaneamente por um processo de descolonização contra a Europa no século 19, o que fez seus países questionarem se é justo haver um vizinho fazendo parte da Europa. O segundo é es­­ta atual tendência de formação de blocos regionais”, avalia Hay­­wood.

Gastos

Ilhas se mantêm sem ajuda externa

O PIB das Malvinas é de cerca de R$ 306 milhões ao ano, e o governo se sustenta e mantém seu superávit com este dinheiro, “sem receber nem dar um tostão ao Reino Unido”, diz Dick Sawle, um dos oito integrantes da Assembleia Legislativa, eleita pelo povo a cada quatro anos. Sessenta por cento dos recursos vêm da pesca, e o restante do turismo e da agricultura.

Para que os produtos, a maior parte importada do Reino Unido, não cheguem a preços tão mais caros ao consumidor , o governo aboliu uma série de impostos, “as nossas reservas permitem isso”, afirma Sawle.

Dos oito deputados, cinco são de Stanley e três do camp (campo, terras fora da capital). Há ainda uma Câmara superior com três integrantes equivalente à dos Lordes inglesa, escolhida pelos oito deputados.

A autoridade máxima britânica nas ilhas é o governador Nigel Haywood, que vive numa linda casa vitoriana cujas salas são repletas de quadros da realeza britânica. As portas, como a de todas as casas e os carros de Stanley, ficam abertas e, para passar por elas, basta ser convidado. A criminalidade é quase zero e só oito policiais patrulham as ruas.

“Há um ou outro caso de agressão de bêbados a moças, uma ou outra batida de carro. Nisso somos bem diferentes dos britânicos e dos sul-americanos. Aqui tudo acontece numa escala muito, muito menor”, diz o policial Richard Moorhouse.

Culpa não apenas da efeméride, alegam todos, mas sim do fortalecimento do discurso do governo argentino de Cristina Kirchner sobre a necessidade de se voltar a discutir a soberania sobre as Mal­­vinas.

Os 3 mil moradores do ar­­quipélago — 2,7 mil vivem em Stanley e os outros 300 vivem no campo — estão tensos e não es­­condem de que lado estão. “Somos britânicos, estamos aqui há pelo menos nove gerações. A população descende dos colonos que vieram do Reino Unido, há somente duas famílias de argentinos vivendo aqui. Se os argentinos nos invadirem novamente, mandaremos eles para o espaço”, diz Patrick Watts, único locutor de rádio no momento da invasão argentina a Stanley, em 2 de abril de 1982. “De repente [há 20 anos], passei a ter um chefe militar.”

Watts traduzia para o inglês o que o militar argentino mandava. Eram mensagens do tipo: “A partir de agora há toque de recolher, ha­­verá apagões para pouparmos energia, dirigiremos do lado direito da estrada e o peso substituirá a libra como moeda oficial”.

“Foi muito difícil, acho que os argentinos achavam que seriam bem recebidos porque, na verdade, éramos dominados pelo Reino Unido contra a nossa vontade e ansiávamos em fazer parte da Ar­­gentina. Mas, quando chegaram aqui, perceberam que tudo era diferente. Ninguém falava espanhol e nem sabia direito onde fi­­cava Buenos Aires; campos minados foram deixados para trás”, conta Veronica Fowler, professora, referindo-se às cerca de 20 mil minas terrestres que ainda existem ao redor da capital, e que so­­mente agora, 30 anos depois, co­­meçam a ser desativadas.

As palavras e o sentimento an­­ti-Argentina de Patrick e Veronica ecoam entre os kelpers, apelido dos nativos das ilhas, cuja população é uma mistura de imigrantes britânicos, estabelecidos antes ou principalmente após 1982 — a economia cresceu muito depois da guerra — e os descendentes dos colonos que chegaram no século 19 ou até antes.

Nos últimos anos, as ilhas receberam cerca de 300 chilenos para trabalhar principalmente nos setores de construção e serviços. As duas famílias argentinas costumam ser reclusas e não gostam de receber a imprensa.

“Mas escreve aí: somos um po­­vo simpático e hospitaleiro, não temos nada contra os argentinos, o que tememos é o governo de Cristina Kirchner”, diz Lyn Buck­­land, kelper que, assim como to­­dos, tem passaporte britânico.

Basta alguns minutos no Vic­­tory Bar para constatar o descontentamento. O pub é um dos quatro existentes em Stanley, e sair para beber é praticamente o único tipo de entretenimento noturno.

As temperaturas nas Malvinas chegam facilmente a zero grau, mesmo no verão, e os ventos são fortes. Os pubs, bem ao estilo in­­glês, funcionam até as 23h (respeitando as leis antigas britânicas), servem cerveja quente em pints, além dos fish and chips (peixe com batatas fritas).

No Victory fazem sucesso ca­­necas de insulto aos argentinos que os moradores não deixam de considerar invasores. No banheiro, um vaso sanitário aparece com a imagem de Leopoldo Gal­­tieri, o presidente da junta militar que governava o país na época da guerra.

Ryan, que jogava sinuca no bar, diz que até gostaria de ver seu país tornando-se completamente independente do Reino Unido — atualmente as Malvinas só dependem dos britânicos nos setores de política externa e defesa. Mount Pleasant custa cerca de R$ 226 mi­­lhões por ano, ou 0,5% do orçamento militar do Reino Unido.

“Mas como ser totalmente in­­dependente se os argentinos vi­­vem ameaçando a gente? Não te­­mos como nos defender sozinhos”, alega Ryan.

              

 

   Chevron tentou indevidamente alcançar a camada pré-sal

  

As petroleiras Chevron e Transocean tentaram indevidamente alcançar a camada pré-sal no campo de Frade, afirma o Ministério Público Federal (MPF). Na denúncia apresentada quarta-feira à Justiça contra as empresas, o procurador da República Eduardo Santos sustenta que elas “buscavam explorar a camada do pré-sal brasileiro, tendo se lançado a perfurar sem condições técnicas e de segurança”. As petroleiras negam a acusação.

Para Santos, há “indícios de que não havia a intenção de parar a perfuração enquanto não se atingisse o pré-sal”. Na tentativa, teria ocorrido a ruptura de alguma estrutura do poço perfurado, dando origem ao primeiro vazamento, de 7 de novembro.O procurador conclui que os denunciados devem responder criminalmente por terem tentado produzir petróleo em desacordo com as licenças e autorizações recebidas dos órgãos competentes. “É certo, tal como exposto pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), que o contrato de concessão dos blocos petrolíferos pertencentes à União cobre as profundidades conhecidas como pré-sal. Entretanto, não é menos certo que a exploração e produção efetiva dos hidrocarbonetos, se demandam atividade maior e mais complexa do que a inicialmente prevista nos instrumentos legais, devem ser comunicadas, avaliadas e especificadas pela ANP previamente”, escreveu Santos na denúncia encaminhada à Justiça.

O secretário de Ambiente do Rio, Carlos Minc, defendeu ontem que uma parte dos royalties do petróleo seja usada para equipar órgãos de fiscalização. “Além de uma coordenação forte, deve haver uma estrutura poderosa, em parte bancada pelo governo e em parte pelas empresas. Não é admissível que, em uma atividade tão rentável como o petróleo, quem fiscaliza, como o Ibama e a ANP, tenha uma estrutura tão precária de helicópteros e satélites para monitorar. Há um desequilíbrio. Quem dá a licença deve ter equipamentos para fiscalizar”, disse o ex-ministro do Meio Ambiente. Minc deverá reunir-se hoje com a direção da ANP. 

  

 

SANGUE LATINO - EDUARDO GALEANO

 

 

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